Smartphones

Eu devia ter no máximo oito anos. Meus irmãos não haviam nascido. Soube que nosso
vizinho havia morrido. Assassinado. Foi ferido de morte em uma briga de facas.
Certamente uma discussão passional e idiota. Mas, a faca que mata, também servia
para passar manteiga na bolacha Maria, a melhor iguaria da casa da minha avó.
/o:p
Aliás, gosto muito de escrever sobre as memórias da minha infância, e quase sempre
meus avós estão nestas lembranças. Isso é só um parêntese./o:p
Na década de 80, quando eu era um quase adolescente, surgiam os primeiros
headphones.  O Walkman era uma novidade para poucos. Ainda usávamos fitas
K7, que passávamos horas gravando diretamente das rádios, privilégio para quem
tinha um aparelho três em um. Lembro de uma fita herdada da minha prima mais
velha, que até hoje sei a sequência de uma música para a outra./o:p
Já em 1986, estávamos nas vésperas da Copa do Mundo do México, meu pai chegou
em casa com um pequeno aparelho batizado de Orelhinha. Num mesmo fone, de um
só ouvido, funcionava um rádio AM/FM que daria para ouvir os jogos. Era muita
tecnologia. /o:p
Um pouco mais tarde, eu participava de uma festa em um barco, era a prévia de um
baile de debutantes. Eu estava interessado em uma menina loira, cabelos pelo ombro,
olhos claros, roupa elegante. Pensando bem, elegante não era uma palavra do meu
vocabulário na época, mas, enfim. Não tenho a menor ideia de quem era, ou quem é,
aquela menina. Fato é que estávamos voltando ao píer, quando ela disse: vou ligar
para a minha mãe. Eu estava curioso, porque não imaginava que haveria um telefone
público naquele barco. Era noite, ela tirou da bolsa um aparelho, abriu, e aquilo se
iluminou como um dispositivo do James Bond. Pela primeira vez eu estava vendo um
telefone celular, de onde ela, de fato, ligou para a mãe./o:p
Adiante, lembro também de quando ainda era estudante de Administração de
Empresas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e estagiário do Banco do
Estado. Por estas coisas incríveis da vida, acabei me tornando sócio de um dos
gerentes, e de outro colega do banco, e compramos uma loja de conveniências num
posto de gasolina. Entre refrigerantes, cervejas, lanches e cigarros, um dos produtos
que vendíamos eram filmes fotográficos. Para fotografar eventos, aniversários, enfim,
tínhamos o limite de 12, 24 ou 36 poses, isso era o máximo que havia de fotos
possíveis em um rolo.  Depois, era preciso mandar em algum lugar, para revelar,
algo que levava alguns dias, e sabe-se lá como ficariam as fotos que haviam sido
tiradas./o:p
Dia de memórias, desde a década de 50 meu avô tinha táxis em Porto Alegre. Chegou a
ter uma pequena frota. Quando comecei a dirigir, restava um. Volta e meia eu fazia um
bico de motorista para ajudar no orçamento. Para encontrar um endereço, um guia no
porta-luvas, com o índice de ruas, e um mapa impresso era o que nos permitia chegar
a qualquer lugar da cidade. A noção de norte e de sul eram fundamentais para a
orientação cartográfica na época./o:p
Em outro post, falava sobre a caderneta preta onde a minha avó tinha catalogados os
telefones de todos os amigos e familiares, além de farmácias, motoristas, e outras
pessoas. Era absolutamente necessário ter uma caderneta daquelas./o:p
Todas estas lembranças pra dizer que em uma época de tecnologias disruptivas,
entendo que a inovação não nasce do zero. Aliás, poucas ideias são absolutamente
originais. Fones de ouvido, rádio, telefone celular, fotografia, ou câmeras digitais, o
Global Position Sistem, ou simplesmente GPS, mapas digitais, agenda telefônica,
agenda de compromissos. Tudo isso ocupava seus
próprios espaços e hoje estão condensados em um único
dispositivo, que chamamos de smartphones. Estamos
conectados inexoravelmente a estes pequenos aparelhos
que hoje parecem uma parte de nós mesmos. Uma
revolução./o:p
Refleti sobre isso, porque ontem, almoçava sozinho,
alheio ao relacionamento entre pai e filho que parecia não evoluir na mesa ao lado,
apenas observava.  Um homem de meia idade, e um adolescente, em uma
pequena mesa.  O rapaz, com fones nos ouvidos, parecia nunca ter estado ali,
exceto pela conta a ser paga. Tampouco o pai, não sabia ao certo o que fazer. Sobre a
mesa, smartphones. As conversas travadas entre ambos, se houve, foi pela tela do
celular. Não se olhavam, não se falavam, apenas comiam e teclavam. Fiquei triste, pois
parecia em curso o assassinato, de uma relação./o:p
Por outro lado, se eu fosse dirigindo até o trabalho da minha mulher agora, eu teria de
percorrer 3.332 km, em uma viagem que levaria 3 ou 4 dias. Ainda assim, pelo
whatsapp, ou pelo Skype, conseguimos tomar café da manhã juntos, sabendo como
está o dia e a expressão de cada um, compartilhando alegrias e frustrações, e orando
em gratidão porque, apesar da distância, nossa relação está cada vez mais forte. Pude
olhar nos seus olhos iluminados pela luz da manhã, e compartilhar um eu te amo! A
vida profissional que nos aproximou, também nos deixa afastados fisicamente por
alguns dias. /o:p
O guri da década de 80, se estivesse aqui, diria que vivemos num filme de ficção
científica. Uma revolução estranha. Enquanto pai e filho sentavam-se juntos, mas
estavam distantes pelo smartphone, a distância de um Brasil, deixou de existir quando
dei bom dia pra minha mulher, graças ao mesmo aparelho. /o:p
Há quem idolatre; há quem demonize. Uma faca, é uma faca. Serve pra matar o
vizinho. Serve pra passar manteiga na bolacha Maria. Mais uma vez, tudo está nas
nossas mãos.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19


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