Caso você esteja lendo isso no futuro, há que se
contextualizar que nesta semana o atual Ministro da
Economia do Brasil, Sr. Paulo Guedes, provocado sobre a
volatilidade cambial e à subida do dólar frente ao real,
teria ironizado declarando que até empregadas
domésticas estavam passeando na Disney, e que
deveriam optar por Foz do Iguaçu, ou outros destinos
brasileiros. Não pegou nada bem, por óbvio. Declaração no mínimo grosseira e
preconceituosa. Ainda que coubesse extensa reflexão sobre o comentário em si, não é
sobre isso que quero refletir. Fico pensando, afinal, quem pode viajar?
/o:p
O mundo encolheu, é fato. Os meios de transportes evoluíram relativamente pouco
nos últimos 50 anos. Automóveis seguem sendo o principal meio de transporte diário,
junto com ônibus e caminhões por via terrestre, que incluem os trens, que seguem
sendo um alternativa interessantíssima, exceto no Brasil. Navios. Aviões. E ponto final.
Mudanças apenas na tecnologia embarcada, mas, basicamente, nada mudou. /o:p
Então, como o mundo encolheu? No mesmo período, ou menos, houve uma explosão
tecnológica das comunicações e das informações. Consigo falar com minha mulher, a
3 mil quilômetros de distância, com qualidade perfeita, por vídeo usando um
smartphone que cabe na palma da minha mão, e consigo enxergar os detalhes e
nuances do novo corte de cabelo. No mesmo aparelho, em 6 minutos, consegui
mandar flores no Dia dos Namorados. Também, consigo reservar, alugar e pagar um
quarto de hotel, ou da casa de alguém disposto a compartilhar, em praticamente
qualquer parte do mundo. Passagens aéreas, da mesma forma, algumas vezes usando
as milhas que minhas compras no cartão de crédito geram como bônus. Portanto,
talvez o mundo não tenha de fato encolhido, mas, é muito mais fácil e barato deslocar-
se por ele. Aliás, mesmo se você não souber falar árabe, búlgaro ou mandarim, o
Google Translater poderá lhe ajudar de maneira instantânea. A questão a se refletir,
afinal, é quem pode viajar?/o:p
A resposta natural deveria ser qualquer um, ou todos! Mas, há que se ponderar que ter
direito a viajar não significa poder viajar. Vou além, troco o verbo poder, pelo
substantivo poder. Quem será que tem o poder de viajar. Especialmente para fora
do país, para outros continentes, para o velho mundo, para a Ásia? /o:p
Viagens, salvo situações de trabalho, são consumo. Ponto. Independentemente de
haver experiências, aprendizado, ganho cultural, descanso, enfim, viagens são
consumo. E, convenhamos, um consumo não essencial no mínimo entendimento do
conceito de Maslow. Neste sentido, há empregadas domésticas com excedentes
financeiros que lhes permite um consumo superior a um empresário endividado com
suas obrigações trabalhistas. Mais uma vez, como já devo ter mencionado, é saber que
o consumo precisa ser do que excede, e não do que poderá faltar. /o:p
O mundo encolheu também porque o anúncio da promoção da viagem, o
parcelamento, o cartão de crédito, possibilitam que a pessoa viaje hoje, e fique o
próximo ano com todo seu orçamento comprometido por uma viagem que já acabou.
O sabor do breakfast americano, do gelatto italiano, ou do curry da índia, podem ficar
amargos quando a fatura do cartão de crédito precisar ser parcelada, para evitar que
falte o arroz e o feijão em casa, especialmente quando a compra lá fora foi feita em
dólar, e o câmbio disparou!/o:p
O Brasil é um país que vende luxo parcelado. A classe média, em especial, compra luxo
e vive pobre, estressada com o emprego, com as dívidas, com as dívidas de um
consumo, de uma viagem, que poderia ser adiada, melhor planejada e feita com
poupança. Aliás, um hábito pouco estimulado no Brasil./o:p
Portanto, de fato, nem todo mundo poderia viajar. Mas, a decisão, certamente, não é
do ministro. Mas, talvez, caiba o alerta.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19
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