Quase do outro lado

Achei que fosse arrebentar o pedal do freio tamanha a força com que pisei! De fato
arrebentou-se. Mas, tudo se arrebentou. Em frações de segundo todo o carro estava
arrebentado. Entre o para-choques dianteiro e o para-brisas, nada sobrou incólume.
Senti meu corpo ser jogado contra o volante e o para-brisas, seguro apenas pelos três
pontos fundamentais do cinto de segurança. Meu próprio corpo estava espatifando
parte do meu braço, enquanto meus dentes mordiam e cortavam involuntariamente a
minha boca. Algumas coisas que estavam no porta-malas, vieram parar no painel do
carro. Alguma fumaça, um zunido grande no ouvido. A música seguia tocando nos
auto-falantes, alheia ao ocorrido, numa batida inapropriada como trilha sonora para o
momento. Demorei longos segundos para entender o que estava acontecendo.
Um. Dois. Três. Calculo que tenha sido esse o tempo entre eu ter pisado no freio e tudo
estar destruído, inclusive meu quadril, tórax, braço, boca, enfim.
Não, não “passou um filme” na minha cabeça. Mas, aconteceu algo bem mais
interessante. Apesar de eu ter tomado providências instintivas, como frear, também
“relaxei”. Senti como se não fosse possível fazer mais nada, e me entreguei ao destino,
ao inevitável, a Deus. O interessante é que me senti “pacificado”. Minhas
preocupações, angústias, ansiedades, dúvidas. Tudo esvaiu-se diante do inevitável.
Sim, eu poderia não estar tendo a oportunidade de registrar isso. Poderia ter feito “a
passagem”. A batida poderia ter sido frontal. Tantas outras coisas. Mas não, apenas o
imenso susto, e o grande aprendizado. Claro que todo o acidente gera uma infinidade
de transtornos. Todos menores. Aquele sentimento de “entrega”, realmente foi único.
Talvez, daí decorra parte da felicidade que tanto se almeja. Entregar-se a quem
confiamos. A confiança, a auto-doação. Esta aí algo a ser experimentado. De que
valem tantas preocupações, tantas dúvidas, diante de uma única certeza? Pode ser
hoje, pode ser amanhã. Mas, uma hora, querendo ou não, estaremos “entregues”.
Veremos.
Em tempo, sem alardes, isso aconteceu há quatro anos. Embora já houvesse refletido
sobre o assunto, ainda não havia feito o devido registro.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19


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