Augusto de Souza —
Lá no horizonte o céu azul começava a ter a cor e o peso
do chumbo. O vento zunia, e levantava a areia fina que
machucava as canelas. Nossos pés molhados nas ondas
que lambiam a praia, e nossa insistência e ficar ali,
observando os raios e relâmpagos que cortavam o céu, e
eletrificavam o mar infinito.
E a chuva chegou! Forte. As gotas pareciam pregos que
machucavam a pele exposta. “Vamos embora!” O trovão parecia bem perto agora.
Dava medo, mas, não desistimos. A chuva ficou mais forte, exatamente quando a
ponta da vara tremeu. Era grande. O peixe que havia mordido o anzol era grande e
bravo. Não poderíamos deixar escapar.
E o vento aumentou. E a chuva também.
Não havia onde nos esconder, corríamos com a vara de pesca, e a linha sendo
enrolada ao mesmo tempo. Para a guarita vazia do salva-vidas! O único lugar que
poderíamos nos abrigar era uma guarida de madeira, sobre estacas, com um metro
quadrado, onde só cabíamos meu pai e eu. De lá, podíamos continuar puxando o
peixe para fora da água.
Raios e trovões insistentes. Mais fortes, mais claros, mais chuva, mais vento! A guarita
balançava à quatro metros de altura. Medo de cair, medo de perder o abrigo.
Queríamos pescar! E vinha vindo na ponta da linha um peixe grande, sufocado fora da
água, se debatendo, querendo nadar, querendo fugir! Havíamos fisgado!
Puxamos o peixe para dentro da guarita. Olhávamos pra ele, como o céu de chumbo
olhava pra nós, estávamos ali, tão presos pela chuva forte, quanto o peixe estava preso
pelo nosso anzol. Mas, ele estava morrendo. Nós, ainda poderíamos fugir.
Ele parecia respirar. Peixes não respiram. Não lembro se sabia disso na época. Agora, a
euforia da conquista pelo peixe fisgado, se misturava com a sensação ruim de vê-lo
morrer. “Frito, envolto em farinha de trigo. Crocante.” Era assim que meu pai já
descrevia o jantar que viria.
Uma rajada de vento balançou de novo a guarita. O peixe já estava no fundo do balde
que levamos para a praia. Vamos embora, isso vai cair! E iria cair mesmo. Descemos
em escalada até o chão, a chuva doía. Olhava no fundo do balde o peixe parecia
implorar. A maré subiu.
Cheguei primeiro na areia. Olhei para o meu pai descendo devagar por cada um dos
degraus de madeira. O balde com o peixe estava comigo.
E virei o balde na água do mar. Não seria naquele dia que teríamos a fritada, não seria
naquele dia que eu terminaria uma pescaria, não seria naquele dia que aquele peixe
morreria.
Meu pai sempre achou que derrubei o balde por descuido, ou pela chuva forte, ou pelo
vendo. Na verdade, fui cúmplice de fuga de um peixe fugitivo, que voltou ao mar. E
nós? Fugimos da chuva forte, para um banho quente, e bolinhos de chuva feitos pela
vó. Quase sinto o gosto do açúcar, da canela, e da sensação de ter salvo aquele peixe
depois de tanto trabalho pra pescar.
O céu de chumbo, o temporal, a perda da pescaria, a dor das gotas grossas de chuva,
do vento forte. Às vezes, é só depois de uma tempestade que coisas boas e doces
surgem em nossa vida. E ficam pra sempre!
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19
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