O frio **Data:** 19 de May de 2021 às 00:46 **Autor:** Fábio Augusto de Souza —

Eu era um jovem convidado numa casa rural nos campos de cima da serra, no interior
do Rio Grande do Sul. Era julho, um inverno rigoroso. Tudo que se enxergava até o
horizonte estava vestido de branco. Não era neve. Era geada. Um vento em particular,
o Minuano, típico daquelas bandas, assoviava e cortava.
Dentro da casa, as paredes grossas, centenárias; a velha
chaleira de ferro repousava no fogão a lenha, servindo
para aquecer a água com que serviríamos o mate
amargo, que atenuava o frio dolorido que subia pelos
calcanhares, como que se percorresse cada osso.
Implacável. O frio era implacável.
Na sala, uma grande lareira retinha chamas insuficientes
para aquecer o espaço, mesmo com janelas fechadas.
Sobre a pele, desacostumada das agruras do campo ou
do tempo, várias camadas: ceroula, camiseta, camisas, blusas, meias, calças, jaquetas,
botas, e sobretudo um grosso pala!
Frio. Muito frio.
Outro dia, senti um frio bem menos intenso, suficiente para me fazer lembrar daquele
dia perdido na memória. Estava indo para o aeroporto, bem agasalhado, aquecido no
banco de trás de um Uber confort, circulando pelas ruas de São Paulo. Pelo vidro,
aquelas pessoas, num frio intenso, sem fogões, sem o chimarrão quente, sem casacos.
Apenas o cimento, o frio e o vento.
O frio implacável.
Lembrei-me que Jesus, ao se referir a pecadores, ao servo mau, aos vendilhões do
templo, amaldiçoou-os dizendo que iriam para onde haveria trevas, tremor e ranger
de dentes.
Lá, sob as marquises, sob os viadutos, nas ruas de São Paulo, nestes dias frios, há
trevas, tremor e ranger de dentes.
Imagino este seja o próprio inferno descrito por Cristo.
Mas, confesso, não me parecem ser aqueles os pecadores que deveriam estar lá!
— *Post extraído do blog ‘Opiniático Reflexivo’ em 29/03/2026 às 21:19* — ##


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