Augusto de Souza —
Na minha casa sempre houve cães ferozes. Faziam parte de um complexo sistema de
segurança criado pelo meu avô: muitas grades, muitas chaves e um cão bravo! Aliás,
cachorros se acham, ou se ganham, nunca se compram. Vira-latas! Clássicos vira-latas.
Comem de tudo, tomam banho de mangueira, jamais visitam “estéticas”, e vão no
veterinário em último, último, mas último caso mesmo. Estes eram os cães lá de casa.
E ficavam: eles lá; nós aqui.
Até que conheci esta menina que se tornaria minha esposa. Dentre as muitas
transformações que ela fez na minha vida, uma delas foi a de mudar a minha relação
com os cães. Naquela época, O Giggio, um poodle médio que vivia na sua casa,
recebia um tratamento tão especial como se fosse da família. Usava os sofás, passeava
de carro, visitava clínicas e estéticas. Enfim, completamente diferente.
Desde sempre, soube que, quando casássemos, teríamos um pequeno cachorro para
“povoar” nossa casa. Apesar de estranhar, gostei da ideia.
Um dia, na “longínqua” cidade de Florianópolis, visitei – sozinho, pasmem – uma feira
de filhotes. Dentre tantos e tantos bichinhos, houve um cãozinho, acinzentando,
espertíssimo, que brincava com outros filhotinhos, que me escolheu. Não teve jeito,
trouxe o Teddy pra casa! Foi caro, confesso, mais caro do que eu jamais pretendia
gastar com um cachorro. Fiquei dividido entre contente e arrependido, mas, enfim, ele
veio por 450km, à noite, num cantinho do carro, com cara de assustado, talvez tanto
quanto eu! Isso foi há 10 anos!
Agora está aqui, este pequeno filhote, sempre filhote, cara de filhote, e jeito de filhote.
Ele é o dono do quarto, dos cantinhos, e da cama – ele fica muito mais tempo nela do
que eu. Nos acorda quando estamos atrasados, e faz festa quando chegamos, sempre.
Não importa se brigamos com ele pela manhã, nem se ficamos longe mais tempo do
que ele queria, a relação dele conosco é incondicional. Às vezes ele rosna, outras, ele
faz um barulho que não sei bem nominar. Acho que em breve ele vai começar a falar. É
incrível.
Ele faz alguma travessura ou outra, a maioria relacionada ao “xixi”. Houve um dia que
ele roubou um sobrecoxa inteira de frango de cima da mesa. Mal conseguia carregar.
Rimos. Há tantas histórias, algumas apreensões. A relação com cães nos torna pessoas
melhores. Especialmente com filhotes assim como o nosso pequeno grande
amiguinho, o Teddy.
Precisávamos “estagiar” com algum ser vivo, não poderíamos arriscar cuidar de uma
criança humana, antes de saber se éramos capazes de cuidar de alguém que
respirasse, além de nós. Aparentemente conseguimos.
Na verdade, quem conseguiu foi aquela menina que me fez gostar de cachorros… eu
sou mero auxiliar! Talvez, com bebês humanos, minhas tarefas sejam maiores.
Veremos.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19
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