Mera ficção

Com a mão esquerda segurei sua nuca contra o meu peito, como o próprio abraço da
morte, e com a outra mão, dei os dois tiros fatais. Não podia mais suportar. Senti o
peso do seu corpo tombando no tapete claro. Ele me olhava nos olhos, estupefato.
Eram justamente os olhos que perdiam o brilho, e por eles a vida se esvaia. Era no
inferno que eu veria novamente aquele mau caráter.
Nunca imaginei que aquela pequena pistola um dia iria disparar. E daquele jeito.
Minha mão estava encharcada de sangue, aquele cheiro de ferrugem. Disparei bem
perto, minha arma colada ao seu abdômen, pude sentir os projeteis calibre 22
perfurarem a pele e a aorta. O esguicho do sangue imundo, sujou minha roupa, e todo
o gabinete de onde administrávamos nosso escritório.
/o:p
Em uma das reformas, meu pai me deu aquela pistola. Cano escamoteável, sem pente,
os cartuchos eram colocados diretamente nos canos – duplos. Todo corpo em aço
inoxidável cromado, cabo em madrepérola, não era fácil encontrar munição. A arma
cabia na palma da minha mão. Por muito tempo, deixei escondida sob as roupas, no
fundo do armário. Quando meu pai  morreu, organizei a arma e o velho relógio
que ele usava, em uma caixa de cerejeira, forrada com veludo vermelho e tampa de
vidro. Levei para o escritório, e lá ficava como objeto de decoração. E recordação.
Em um fundo falso, seis munições.
De tudo que havia naquela sala, a poltrona Chesterfield
em couro e capitonê, era o que eu mais gostava. Jogar-
me nela, depois de um cliente difícil, uma longa
audiência, ou uma tarde no Fórum, acompanhado de
uma generosa dose de uísque e gelo, mantinham
razoavelmente minha sanidade mental.
Não naquele dia.
Eu estava ali, com a caixa de madeira no colo e a garrafa de uísque pela metade. Já
havia colocado duas balas na arma. O velho relógio do meu pai, descansava no braço
da poltrona, de onde escorriam lentamente cada um dos muitos segundos que ele
demorou pra chegar. Paletó jogado sobre a mesa, a gravata frouxa no pescoço, tudo
estava certo.
Para dar errado. E deu!
Como ele poderia ter feito aquilo comigo? Eu o tratara como um pai, ou um irmão
mais velho. Chorei, ele chorou. Arrependido. Talvez. Encolheu-se, buscando abrigo no
meu corpo. Canalha. Com a mão esquerda segurei sua nuca contra o meu peito, como
o próprio abraço da morte, e com a outra mão, dei os dois tiros fatais.
Nota: nunca tinha escrito nada ficcional, porque não acreditava em ficções. Parecia-
me que toda história revelaria um pouco do seu autor. Quem sabe? Ainda assim, eu
gostaria de escrever ficções, histórias mais sórdidas, mais cinzas, sem parecer que eu
sou realmente assim. Uma pequena permissão para dar alguns tiros, como se fosse
em um alvo de papel, uma brincadeira, uma fantasia.
O trecho acima não tem início, ou fim. Não tem motivo, nem tem enredo. Pelo menos
não ainda. Como tudo no Opiniático, nada precisa fazer sentido, ou ter propósito.
Quem sabe, com o tempo, penduro uma coisa ou outra na trama?
E sim, um pequeno desvio em meu recente romantismo literário. Desvio, devidamente
permitido pela minha musa inspiradora. Quem sabe ela se torna personagem de uma
trama de ficção? Algo do tipo:
Talvez, aquela saia tenha sido costurada diretamente no seu corpo. Era tão justa que
ela era obrigada a estar com os músculos das coxas e do glúteo contraídos sobre os
saltos 15. Desfilava com as pernas mais bem torneadas e fortes que eu vi. Meu olhar
percorreu cada centímetro do linho branco, e não fui capaz de perceber a marca da
lingerie sobre a pele. Precisei me concentrar para não aparentar minha excitação ali
mesmo, na recepção da empresa. A blusa, em seda, acariciava sua pele morena, e um
botão aberto, não conseguia esconder a renda vermelha. Cabelos soltos emolduravam
um rosto de traços perfeitos, um sorriso luminoso. Ao cumprimentá-la, pude sentir o
hálito agradável, e o perfume inconfundível: Lady Emblem, Mont Blanc. 
Que bom que você chegou, disse ela com a voz rouca, tentando parecer indiferente à
minha presença. Era difícil acreditar que eu dividiria o elevador com a mulher mais
perigosa que eu poderia ter conhecido. Eu estava disposto a correr todos os riscos.
Não sairia daquele prédio sem levar comigo todos os projetos e respostas para as
quais eu havia me preparado.
Já no elevador, senti a eletricidade. Ela não desviava o olhar. Astuta. Ela sabia o que
queria, mas, não sabia que teria que dividir comigo.
Nota: este segundo trecho, embora seja mera ficção, é muito mais inspirado na
realidade. quem sabe um dia eu continuo descobrindo o que acontece com esta saia
justa?
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19


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