Lençol Azul (não tem como ser outro

título)
Gossypium é gênero. Há várias espécies: arboreum, barbadense, herbaceum. Diversas.
Todas dizem respeito ao algodoeiro, uma planta arbustiva, que produz o algodão. Sim,
aquela fibra branca que cresce justamente em volta da semente do algodoeiro. O
algodão, dizem, desde o final da última era glacial é utilizado na produção de tecidos.
/o:p
Da colheita até a máquina de fiar, ou de fazer fios, o processo passa por várias etapas.
Descaroçamento, beneficiamento, separação. Até que se tornem fios torcidos de
diversas espessuras, inclusive milimétricos./o:p
Daí, o caminho é a tecelagem, onde os teares trançam os fios em diversas gramaturas,
fios justapostos, horizontais e verticais, em milhares de tramas mais ou menos
apertadas. Com mais ou menos fios por centímetro quadrado./o:p
Em algum momento, seja diretamente nos fios, seja no tecido, há o processo de
tingimento, quando se deseja uma cor diversa do branco. Eis que alguém desejou
tingir um tecido muito especial e delicado em azul claro. Esse tecido foi medido,
cortado e costurado em um conjunto de lençóis muito macios./o:p
Voltava pra casa, de uma viagem a trabalho. Deixei as
chaves com a diarista que faria a limpeza do meu
apartamento. Da porta da sala já vi os lençóis azuis
cuidadosamente esticados sobre a cama. Larguei as
malas desajeitadamente, caminhei até lá, estendi minha
mão em palma, acariciando o algodão finamente
tratado, fiado, e tingido que compunha aquele lençol.
Alguém diria que é um tecido comum, numa situação
comum. Não./o:p
Sobre aquele lençol descobri o amor. O amor sentido, o amor pensado, e sobretudo o
amor feito. Este mesmo, feito entre toques e sussurros. Entre apertos e carícias. No
encontro dos lábios e na troca de compostos orgânicos. Foi lá, entrelaçados que
descobrimos um amor que ainda não reconhecíamos. Até lá éramos apenas
aventureiros entregues ao abismo de sensações e de emoções que sentíamos há
muito tempo, e agora colocávamos em prática./o:p
Quando vi aquele lençol de novo, vi suas mãos espalmadas no colchão, seu corpo
arqueado num suspiro, seus olhos fechados e dentes cerrados. Eu vi por todos os
ângulos, de várias formas./o:p
Vi seu corpo estremecendo, descontrolado. Senti suas unhas na minha pele, e a
vontade de querer mais, indefinidamente. /o:p
Vi seu rosto repousando satisfeita no meu peito. Seu toque carinhoso, e seu olhar
contemplativo, como se pensasse até onde iríamos com isso. Como seríamos felizes se
prolongássemos cada um daqueles minutos./o:p
Bastaria uma única vez, uma única oportunidade. Dias depois, descobrimos coisas
muito mais intensas e profundas. Descobrimos uma nova vida, de escolhas, de
projetos, de convergências e desafios. Muitos novos momentos vieram, e outros
tantos hão de vir. Mas, aqueles minutos naquele macio e perfumado lençol azul,
ficarão pra sempre conosco.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19


Deixe um comentário