Estamos há pouco mais de 30 dias do primeiro caso da Covid-19 no Brasil. Caso você
esteja lendo isso no futuro, basta ler um dos meus últimos posts para ter uma
contextualização do que se trata./o:p
As ações do governo, e o pânico instalado em função da alta taxa de contágio da
doença têm nos colocado à beira do caos. É muito difícil avaliarmos qual a conduta
correta. Se por um lado o isolamento social, a reclusão doméstica, o fechamento do
comércio, e a quase-suspensão da vida parecem ser medidas de desaceleração da
doença, por outro, milhares de outras vidas parecem ser afetadas porque
simplesmente dependem do giro da roda./o:p
Talvez caiba uma reflexão muito mais profunda, filosófica, e prática para definir se o
órgão mais sensível e importante do ser humano é o pulmão, afetado pelo
coronavírus; o coração, afetado pelo amor; ou o bolso, neste momento, afetado pela
completa inativação forçada da vida social, comercial e industrial do país./o:p
A despeito disso, chamo atenção para o fato de que as vítimas fatais da doença
parecem ser idosos e pessoas imunodeprimidas, ou seja, quem já tinha uma condição
frágil de saúde e os velhos./o:p
Quem me conhece sabe do privilégio que tenho de ter
convivido durante quase toda vida com todos meus avós,
hoje todos quase centenários, e vivos. Preocupação
extra, pois, no caso deles a Covid-19 é praticamente uma
sentença de morte./o:p
Todo o sistema de saúde está voltado para evitar que
pacientes superlotem os hospitais e unidades de tratamento intensivo do país,
especialmente para que haja vaga para os mais idosos, os que tem maior risco de
vida./o:p
Eis que o Vô Chico, precursor do Francisquismo no Brasil, meu Vô-Formiga, atendendo
a recomendação estapafúrdia do Ministério da Saúde, de tirar os mais idosos de casa,
foi ao Posto de Saúde tomar uma vacina que não protege contra o vírus mais letal e
contagioso que circula no país. E, em um descuido próprio de quem tem 90 anos, e se
apoia na frágil bengala, desmoronou, caiu, com a cabeça no chão. O asfalto,
transformou o rosto num pedaço de carne inchado, cortado, moído. O sangue, a terra,
a desorientação. A segunda vértebra cervical, fraturada. Por um milagre milimétrico,
segue respirando, totalmente imobilizado, justamente num leito de CTI, sem ter
absolutamente nada a ver com o coronavírus, exceto pelo fato de que lá, a chance de
ser contaminado, é muito, muito maior!/o:p
Agora, a cirurgia delicada é um risco. Dos cenários possíveis além da recuperação
plena, milagrosa para essa idade, a tetraplegia ou a morte, são resultados dolorosos e
possíveis. E nada, nada disso tem a ver com isolamento social, com novas doenças,
com pandemias, ou com a intervenção estatal na decisão de cada um./o:p
Irônico que um dos nossos velhos, protegidos pelo isolamento social, no meio do
caos, precise estar sozinho num leito de CTI, tendo a morte como possibilidade
iminente./o:p
Dentre tudo, no mínimo irônico.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19
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