Ingenuidade Perdida

Ainda não consegui trazer aqui vários arquivos que tenho vontade de publicar há
meses. Enquanto isso, aproveito a ferramenta para “tratar-me”. Sim, embora sempre
soubesse, não tinha a exata consciência de que escrever, para mim, é um grande
tratamento, é uma válvula de alívio.
Pois bem. No início dos anos 90 eu fazia coro com os “Caras Pintadas” no Largo Glênio
Peres em Porto Alegre. Era muito guri ainda, e não sabia ao certo o que significava
brigar pelo impedimento do então presidente da República Fernando Collor.
Tampouco entendia a profundidade ou as causas disso ou daquilo. O fato era o de
que não poderia deixar de brigar, de ter um propósito.
De lá pra cá, entendi e percebi algumas coisas. Dentre elas o que é certo e errado, e
qual modelo político-econômico entendo ser o mais adequado para que se promova
justiça e bem-estar social. Diferente de muitos de meus amigos, sempre defendi a livre
iniciativa, a economia de mercado, o Estado de Direito. Entendo que Justiça Social
seja promover oportunidades e “nivelar por cima”. É promover o crescimento do
pequeno, e não a diminuição do grande. Mas, enfim, isto apenas para contextualizar
como funcionam algumas de minhas convicções (se é que em tempos modernos
admitem-se convicções).
A questão que me leva a reflexão de hoje, é que as vezes ainda me deparo com minha
ingenuidade de 20 anos atrás. Ainda acho que existem parlamentares e políticos que
trabalham em favor da nação. Quero acreditar que as mazelas e as metástases da
política nacional são exceções. São notícia pela exceção. Mas, infelizmente, percebo
que o tempo da ingenuidade precisa passar.
Esta semana quando Renan Calheiros e Henrique Alves assumem as presidências,
respectivamente, do Senado e da Câmara dos Deputados, nenhuma ingenuidade
pode resistir. Nenhuma crença na ética, nenhuma esperança na diferença do que é
certo ou errado pode aguentar. Ainda que hajam mecanismos processuais,
regulamentos e regimentos permissivos; ainda que hajam esferas de defesa; ainda que
as decisões sejam coletivas (o que é mais grave), não haverá ninguém, nunca, que
poderá encerrar com tamanha falta de respeito à sociedade brasileira? Note-se que
não trato de um respeito à história do Brasil, que me perdoem, não tem nada de
gloriosa, mas respeito ao futuro do Brasil, que é onde, afinal, gostaria de ter filhos e
netos. Será que não há mais esperança para nós?
A esperança do ingênuo adolescente de outrora, que insistia em resistir como uma
chama que esvai-se aos poucos, tombando com uma leve brisa, talvez, infelizmente,
tenha apagado.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19


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