Incondicionalidade **Data:** 21 de May de 2013 às 11:09 **Autor:** Fábio Augusto

de Souza —
Qualquer relação que iniciamos, vem sempre cheia de expectativa, cheia de
esperança. Não importa se é no campo afetivo, ou profissional; tampouco, importa se
é uma relação amorosa, de amizade, ou mero coleguismo. Em todas as relações
positivas que iniciamos, permeia-nos a esperança de que todas as nossas expectativas
sejam atendidas.
Um profissional brilhante, com decisões firmes e coerentes, comprometido, que não
erre, e seja entusiasmado e leal por todos os longos anos em que trabalhar por aqui.
O amigo fiel, companheiro, parceiro de churrascos, e de momentos de solidão. A
esposa recatada, discreta, boa mãe, mas, avassaladora entre quatro paredes, sob os
lençóis; excelente cozinheira, elegante, independente, ou dependente, enfim. Os
filhos, claro, muito bem educados, bons alunos, obedientes. Que façam suas orações
antes de dormir, e, as filhas, especialmente, mantidas virgens para todo o sempre.
Pois bem. Seu colega de trabalho, aquele estupendo profissional, irá lhe decepcionar.
Seu velho e bom amigo, também. Sua esposa e seus filhos irão lhe magoar
profundamente. Assim como seus pais e irmãos. Não há chance, e não tem jeito. As
pessoas vão nos magoar, vão nos machucar, nos decepcionar, nos frustrar.
O problema é que, com a mais absoluta e franca certeza, você magoará também todos
os seus amigos. Irá frustrar algumas vezes seus colegas e seus parceiros. Irá
decepcionar profundamente sua família. Especialmente seus pais, de quem,
provavelmente, você receba o amor mais incondicional possível. Não tem jeito, em
algum momento, você irá partir o coração de alguém, com os mais perversos
requintes de crueldade.
Isso acontecerá com todos, com maior, ou menor gravidade. Não há como partir desta
vida sem uma porção de cicatrizes. E as mais profundas, as maiores, serão causadas
por quem conseguiu estar mais perto. Estas cicatrizes estarão na nossa alma.
Cicatrizes que causamos, e que sofremos. Como diria meu amigo Márcio (Ailto Barbieri
Homem): “quem disse que precisamos voltar com nossas almas intactas”?
Se tudo isso é verdade – inexorável verdade – como podemos condicionar nossas
relações ao fato de não sermos magoados? Como podemos impedir as pessoas de nos
frustrarem, de ocasionalmente nos entristecerem, se esta é uma certeza prévia?
Mantemos nossos pares sob a sombra de uma pesada espada na medida em que
condicionamos nossa reciprocidade à uma conduta absolutamente perfeita, ou
adequada às nossas expectativas. O que é uma imensa ingenuidade, no mínimo.
Embora não seja fácil, penso que um grande e virtuoso propósito seja o da relação
incondicional. Estaremos juntos. Não importa se com o coração partido, estaremos
juntos. Não importa se me decepcionares, estaremos juntos. Frustrados. Estaremos
juntos. Cuidando de nossas feridas. Amparando-nos.
Não importa se você é meu amigo, meu irmão, meu pai, minha mãe, minha esposa,
meu colega. Eu lhe autorizo a me magoar! Esteja previamente perdoado, porque,
nestas relações de incondicionalidade, o perdão é presumido. Sei que vai doer. Sei
que vai sangrar. Mas, vai passar. Preciso mais de você, do que sua capacidade de me
fazer sofrer. Preciso de você para me erguer, para me curar. E estarei aqui para lhe
estender a mão, sempre.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19


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