Augusto de Souza —
A festa estava cheia. Quando entrei, do outro lado do
salão, no meio de tanta gente, ela me olhou. Nos olhos. E
sorriu. Sorriu e baixou a cabeça, deixando os cabelos
caírem-lhe no rosto, simulando timidez. Era um evento
corporativo, estávamos celebrando os muitos desafios
superados ao longo daquele ano. Como sempre, eventos
da empresa, também fazem parte do trabalho.
Precisávamos circular, cumprimentar as pessoas, colegas em comum. Ela de um lado,
eu de outro. Rastreávamos um ao outro. Percebia o olhar dela em mim, justamente
porque não conseguia tirar os olhos dela também. Algumas fotos aqui, outras lá.
Finalmente, uma nossa. Simulação de um encontro acidental, quando nos cruzamos
no cenário adequado.
Finger foods. Esse era o sistema do jantar. Ficamos próximos enquanto a cerimônia
seguia seu protocolo. Trabalhamos juntos há muitos anos e sempre tivemos entre nós
admiração e respeito. E confiança. Comentávamos e falávamos sobre tudo. E, como
sempre, ela sorria. E o seu sorriso sempre me iluminava. A risada gostosa e o corpo
arqueado. Era um bom sinal, me fazia acreditar que estarmos juntos a fazia feliz.
O padrão da festa seguia: discursos, sorteios, homenagens, e, finalmente, música. E
dançamos. Juntos. Muito juntos. Sentia o calor do seu corpo, e parte das suas curvas
entre minhas mãos e meus braços. Uma coreografia improvisada, e sincronizada,
como se já tivéssemos feito antes. Dois pra lá, dois pra cá – cochichei ao seu ouvido.
Me conduza, ela respondeu. Não sei dançar, mas ela se entregou. Dois pra lá, dois pra
cá. Solta, gira, sob meu braço, volta, seguro novamente, a inclino, segurando na
cintura.
Uma sandália transparente. Um salto muito alto, e brilhante. Literalmente. O salto
tinha uma iluminação da cor do vestido: vermelho! Sim, ela desfila, ela é única, é
linda, e sempre causa uma espécie de apneia coletiva quando chega. Onde quer que
seja. Ainda hoje, ela me faz perder o fôlego.
Um susto. Ela girou, o salto, a sandália, o piso molhado, uma escorregada. Ela iria ao
chão! Eu estava perto o bastante para alcançar-lhe pelas ilhargas, segurar-lhe pela
cintura, e lhe suspender no ar antes que ela caísse. Aos que olhavam, apenas um
passo mais ousado, como se deliberadamente eu a tivesse tirado do chão.
Foi a primeira vez que fiz isso. Tirei o amor da minha vida do chão!
A partir daquele momento, as pessoas deixaram o salão, apenas a banda ficou. Um
único canhão de luz nos iluminava. O gelo seco deixava o ambiente mais intimista.
Levei a mão direita aos seus quadris, a mão esquerda à nuca, puxei seu corpo quente
pra mim, olhamos nos olhos um do outro, e nos beijamos apaixonadamente.
Uma pena. Isso não aconteceu assim. Mas, poderia. Eu ainda não poderia ser dela,
precisava tomar outra decisão antes.
Aquela noite acabou depois de dançarmos. Prometemos um ao outro que
dançaríamos novamente, e que sentiríamos saudade. Muita!
Uma semana depois, eu voltei, só dela!
Tirei meu amor do chão pela segunda vez, e aquele beijo, finalmente, aconteceu!
Seguimos dançando desde então. Agora, nossa pista preferida é a sala de casa,
sozinhos, ou com as crianças. Não precisamos mais de saltos iluminados, embora ela
continue usando lindos sapatos, fazendo suspender minha respiração muitas vezes,
seja qual for o figurino. Hoje, podemos dançar de chinelos e pijama, e dançamos,
ainda mais apaixonados, e sigo suspendendo seu corpo no ar, entre giros, e dois pra lá
e dois pra cá.
No final da noite, não vou mais embora, apenas trocamos de pista e de dança!
Amo você @andreza.asilva.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19
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