Há dias venho tentando construir alguma posição sobre as manifestações que tem
ocorrido no país. Tinha quinze anos quando participei do movimento dos Cara
Pintadas. Lembro de usar camiseta preta, e uma jaqueta da seleção brasileira. O
objetivo era claro, e, estávamos muito longe de atingir metade da proporção que hoje
as coisas estão tomando no país. Vinte anos se passaram, e de lá pra cá, não tinha
visto nada parecido.
Preocupa-me a violência, a fragilização das instituições, a perda de limites, o
vandalismo. Preocupam-me as perdas injustas de quem também se sacrifica para
manter sua família e seu trabalho. Preocupa-me o descontrole da massa, da multidão.
Fazia frio em Porto Alegre na noite de ontem. Fazia frio e chovia muito. E quem viveu
aqui sabe bem o quanto é molhada e fria a chuva no início do inverno em Porto Alegre.
Fiquei arrepiado de ver as imagens da Av. João Pessoa ontem. Um misto de medo,
preocupação e orgulho. Apenas do frio, da chuva, vinte mil pessoas caminhavam pelas
ruas a protestarem contra… contra o que mesmo?
Diferente da década de noventa, não é contra um presidente corrupto. Parece ser
contra a própria corrupção. Não é a passagem de ônibus. É a passagem de ônibus
cara, diante de um serviço ruim. Não é a Copa do Mundo. É a Copa do Mundo em
substituição a hospitais, serviços e segurança pública. Não é contra determinada
pessoa. É contra partidos, instituições, sindicatos. Há tanta coisa que incomoda, que
machuca, que simplesmente houve um transbordamento de todos os anseios de
quem parece ver a prosperidade brasileira apenas na mídia externa e pouco na prática
diária.
Há um risco grande, a partir de agora, na medida em que a violência aumenta, e a
pauta de reivindicações perde foco, de ter uma mobilização contra ela própria, como
uma serpente que engole a própria cauda. Não há como compactuar com destruições
patrimoniais privadas e públicas semanalmente. Não há como mobilizar e montar
estratégias de deslocamento de funcionários, de forma alternativa, semanalmente. O
custo das manifestações começa a se tornar muito alto, e ela pode passar a ser vítima
de si mesma.
Toda ação, todo movimento, tudo que fizemos contém em si uma relação de custo X
benefício. Enquanto há pauta, enquanto há bandeiras, e estas, valem o sacrifício, e o
benefício é maior que seu custo, elas serão válidas e terão força. Caso contrário, serão
sufocadas, cedo, ou tarde.
Vejam a questão dos vândalos, da violência, embora seja um pequeno grupo, cabe à
aplicação de Paretto. Uma pequena parcela criminosa causa enorme transtorno para
a imensa parcela pacífica. Querendo ou não, é no seio manso e pacífico da
manifestação que se abrigam os maus, os aproveitadores, os criminosos.
E é mais difícil ainda, por não haver comando, nem liderança constituída. Trata-se de
uma ebulição desordenada, como um vírus autônomo, que se reproduz em
velocidade. Como direcionar a massa desordenada, ou descoordenada? Aí esta outra
preocupação, aí está o grande temor. O Estado, o governo, a sociedade civil, está
perplexa, sem saber o que fazer, sem saber como atender reivindicações, sem saber
como se posicionar frente a tudo isto. E está com medo!
Afinal, porque não mobilizarem-se aos domingos pela manhã, ou sábados à noite?
Porque comprometer a capacidade produtiva do país, e a própria? Porque colocar em
risco os próprios pares? Porque bonificar os criminosos inseridos dentre os pacíficos,
com a proteção das sombras da noite? Qual o tamanho da força de um país, se
pudéssemos, tranquilos e seguros, clamar por nossas próprias pautas – associadas e
conectadas?
Resta em mim, ainda, uma pequena chama idealista do guri de outrora, quando havia
uma crença absoluta que faríamos a diferença para o futuro da nação. Há uma nova
oportunidade. Mas, é preciso aprender com erros do passado. Realmente torço para
que as mobilizações, ou para que esta imensa mobilização sem rosto, encontre suas
bandeiras de maneira clara, e vão às ruas, na luz do dia, mostrando os rostos, sem
máscaras, sem panos, sem sombras, abrindo o peito e realmente transformando o
país! …para melhor.
Até lá, sigo desconfiado. Sinto um cheiro que não me agrada. Aquela sensação de que
possa haver alguma manipulação, algum interesse, alguma coisa mais sombria do que
aquela que se combate. Talvez meu medo maior não seja o que pode acontecer ainda
de destruição ou violência, mas o que pode NÃO acontecer, depois que isto tudo
acabar. Meu medo maior é mais tarde, olhar para as ruínas das cidades, e perceber
que as coisas não mudaram, e que tudo não passou de uma breve catarse juvenil.
Mas, o assunto não se encerra, é complexo, é amplo, é demorado. Por hora, e por hoje,
sigo apenas com desconfiança. Restam perguntas, muitas, e apenas perguntas.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19
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