Coação e Estímulo

Hoje estive refletindo sobre a relação entre incentivar alguém a fazer alguma coisa, e
obrigar, coagir, determinar que alguém faça alguma coisa.
Exemplo clássico disso é a diferença do pai advogado, que OBRIGA o filho a fazer o
curso de Direito, em relação a outro pai, também advogado, que INCENTIVA o filho a
cursar Direito. Nenhuma das duas posturas garante que o filho de um ou outro, torne-
se um bacharel, mas, certamente a relação entre pai e filho será diferente.
Há uma diferença abismal entre as duas posturas. Não tenho convicção ou dados
empíricos que possam comprovar qual o método mais eficiente, mas, certamente, o
“incentivo” constrói uma relação de maior harmonia, respeito e, provavelmente
felicidade.
Contudo, é preciso estar disposto a não lograr-se êxito quando apenas incentivamos
alguém a tornar-se melhor. Mas, o compromisso com o outro, é, neste caso, mais
importante que o compromisso consigo mesmo.
Veja, quando obrigamos alguém a fazer alguma coisa (e aqui não me refiro a utilizar
nenhuma coação física irresistível), impulsionamos a outra pessoa, em última análise,
a atender uma necessidade pessoal nossa, e não desta pessoa. Quando alguém está
obrigado, forçado, a fazer algo, ele não faz isso por sua própria necessidade, mas, pela
necessidade de quem o está obrigando. Por outro lado, quando somos incentivados a
fazer algo, estamos identificando na realização deste algo a realização ou conquista de
benefício próprio, ou seja, o ganho é nosso.
A necessidade do pai que obriga é própria do pai. A necessidade do pai que incentiva é
a do filho.
Vejamos no caso das empresas, contamos com a presença pontual de muitos
colaboradores, e exigimos que pontualmente estejam na empresa, sob pena de
sanções e descontos salariais, considerando que a empresa precisa deles. Trata-se de
uma necessidade da própria empresa. Neste caso, trata-se de uma relação perde-
ganha. Ameaçamos punir e descontar, para ganharmos a presença da pessoa na
empresa. Afinal de contas, objetivo principal é o cumprimento das metas e a busca
pelo lucro da empresa e não do empregado.
Contudo, os melhores colaboradores, provavelmente, nunca tenham sido obrigados a
chegar no horário, ou cumprirem suas metas. Os melhores, procuram, em maioria,
cumprir com suas respectivas missões, objetivos, enfim, com seu trabalho como meio
para desfrutarem de realizações pessoais, reconhecimento, remuneração, espaço.
Tornam-se assim, cada vez melhores e, sobretudo, mais felizes. Portanto, a relação é
ganha-ganha, tem-se profissionais que realizam-se cada vez mais, atendendo as
necessidades da empresa.
Neste caso, o líder, ou o melhor líder, será aquele que conseguir identificar dentro da
empresa, aquilo que poderá servir de incentivo para que que seus colaboradores
possam buscar suas próprias conquistas, através do atendimento das necessidades da
empresa. Neste caso, o cumprimento das metas e do lucro da empresa realiza-se de
forma indireta, mas, perfeitamente exequível.
Ainda cabe uma ponderação que, no caso do pai em relação ao filho, eventualmente,
para buscar o atendimento do propósito do filho, o incentivo na realização do curso de
Direito, poderá ser substituído pelo estímulo ao curso de Administração, Medicina, ou
simplesmente ao estudo latu sensu. Já na empresa, o estímulo sempre será
relacionado o objeto comercial da empresa, portanto, não haverá como estimular um
médico, a agir como engenheiro, e vice-versa. Neste caso, é preciso estimular as
pessoas certas. Formar e ter a equipe certa, capaz de sensibilizar-se com os estímulos
possíveis pela empresa. Afinal, não conseguiremos sensibilizar alguém avesso a
sangue, por exemplo, a tornar-se um excelente médico.
O líder que conduz sua equipe através da coação, pensa, geralmente, apenas em si, e,
provavelmente tenha pessoas erradas na sua equipe. O líder que age através do
incentivo, está preocupado com sua equipe e seus colaboradores, para que realizem,
através da empresa, seus próprios propósitos. Nesse caso, é fundamental saber se os
propósitos são comuns.
Portanto, penso que, em havendo uma equipe adequada, cada vez mais o papel dos
líderes é o de estimular as pessoas a realizarem-se profissionalmente,
intelectualmente. É fundamental incentivar as pessoas a buscarem o
aperfeiçoamento, a melhoria contínua. Não porque isso fará bem para a empresa. Mas
porque fará bem para a própria pessoa, para o próprio profissional.
Contudo, resta dúvida de que a empresa ganhará com isso? Mais ainda, como será a
relação com este colaborador, que, ao contrário de estar obrigado a vir para a
empresa, sente-se no trabalho, construindo e percorrendo caminhos em direção a um
propósito próprio?
Bom, acho que existem caminhos.
— *Post extraído do blog ‘Opiniático Reflexivo’ em 29/03/2026 às 21:19* — ##


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