Carta ao Quintana

São Paulo, 12 de maio de 2020.
Quintana,
Escrevo-te numa manhã estranha, desde a capital paulista. Por sorte, não
viveste os tempos que estamos experimentando. Estarias isolado, sem poder circular
na Rua da Praia, ou fumar teus cigarros na praça. A despeito do que poderias imaginar,
estou em perfeito estado de saúde, e penso que onde quer que estejas, também, já
que estas preocupações prosaicas já não são tuas.
Li o que escreveste (ou disseste), sobre o fato de não teres jamais casado:
prefiro ser a esperança de muitas, do que a desilusão de uma só!. Como sempre,
espetacular, lindo, sábio, prudente.
E covarde!
Covarde, Mário! Arrogante, Mário! Para um poeta que descreveu tão bem
amores e inquietudes da alma, como teus contemporâneos, fostes machista, Mário!
Sim, eu sei! É de uma ousadia absurda contestar-te, o saudoso e imortal
Mário Quintana!
Mas, tenho meus argumentos.
O primeiro é quanto à covardia. Esgueirar-se das vicissitudes do amor por
medo de desiludir, mais parece medo de desiludir-se, isso sim! É não acreditar no
próprio sentimento, é não acreditar que os instantes e anos compartilhados valeriam
cada segundo dos outros de solidão!
Ah Mário, como pudesses perder o sorriso da mulher amada pela manhã?
Uma manhã simples, depois de uma noite qualquer. Aquela noite que seria de
puritanismo sacerdotal, como previa-se pela calcinha grande e bege, pelo copo de
suco, e uma série repetitiva na TV, mas, que terminou com aquele corpo lindo
arqueado em seus braços, entre suspiros, depois daquele beijo que só o tempo e a
confiança lhe permitiriam? Perdeste isso, Mário!
Ah, Mário, isso só o tempo permite. Que covardia!
E quanta arrogância cabe na tua frase? Quem és, ou quem somos para
imaginar que inspiramos suspiros e esperanças? Quem és, ou quem somos para
imaginar que somos capazes de ser motivo de desilusão? Qual ser humano pode
imaginar ser dono do sentir e do amar do outro, quando na verdade mal conseguimos
guardar dentro no peito a direção dos próprios amores.
Ah Mário, e quão machista fostes? Qual mulher sofreria por ti? Qual mulher
sofreria? Não é, pois, a mulher a guardiã do sofrimento do mundo, que suportam
dores, jornadas triplas, desafetos, ingratidão? Serias tu, um reles poetinha, capaz de
causar tanta desilusão a ponto de não suportar a ideia de entregar-se a um amor? Ora,
o varão poderoso que prefere a solidão em detrimento da dor que certamente
causaria?
Convenhamos, qual homem poderia agir com tamanha covardia? Apenas tu,
Mário!
És imortal em tuas palavras, e eloquente na tua covardia, ao demonstrar a
todos os homens o medo de amar. Sim, porque atrás das tuas palavras está o medo do
amor, sim, porque ele tira o sono, tira o conforto, tira o chão. Não porque possamos
desiludir, mas, porque podemos ser desiludidos. Não porque não somos amados,
mas, porque somos humanos.
Ah, quão sem graça seria a vida sem o medo do amor, sem a vertigem que se
tem, com os pés no chão, nos instantes que antecedem a chegada. Quão displicentes
seríamos nós, se não tivéssemos a consciência da brevidade da partida, e se não
tivéssemos a dor da saudade que insiste em ser a única constante!
Ah Mário, obrigado por me permitir discordar de ti.
Forte Abraço,
Opiniático.
Mário Quintana é um dos principais nomes da literatura
gaúcha, poeta e incrível frasista. Morreu em 1994, aos 87
anos e deixou um enorme legado para nossa querida,
mui leal e valorosa cidade de Porto Alegre. É possível
visitar o pequeno quarto em que viveu – sozinho – no
Hotel Majestic, no Centro Histórico da cidade, hoje
transformado na Casa de Cultura Mário Quintana. “Eu
moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja
pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas.”
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19


Deixe um comentário