Cara de Idiota

Faz dois dias que ela me acordou muito cedo com a notícia: Tenho um presente pra te
dar.
Saindo de um sono profundo eu só conseguia pensar que tinha esquecido de alguma
data especial, e que talvez também teria que ter comprado um presente. Não
lembrava de presente nenhum.
Nos milésimos de segundo até acostumar meus olhos à luz, pensei que ela poderia ter
feito o café, e trazido na cama, tarefa conjugal que assumi desde antes de casarmos.
Não era isso.
Ela estava com alguma coisa que parecia um termômetro digital maior do que o
normal. Rastreei a memória e ainda não conseguia identificar o artefato nas suas
mãos. Estreitei mais os olhos no pequeno visor digital: Grávida 2 – 3.
Um bug cerebral. Algo como um travamento mental, difícil verbalizar.
Grávida?
Não que fosse algo impossível. Obviamente não era. Desde que casamos não evitamos
uma gravidez. Mas, eu não tinha certeza se isso era realmente possível. Ou se era
possível pra mim.
Sério? Grávida?
Estou ainda com uma cara de idiota. Não que minha cara não seja de idiota. Mas,
agora, eu reconheço o tipo de cara de idiota que estou.
Será que vai dar tudo certo? Será que é um menino, ou uma menina? Guri ou guria? E
agora, vou conseguir dar conta de pagar o apartamento que compramos e as fraldas?
E se acontecer alguma coisa com o trabalho? Será que o bebê está bem? Já tem
coração? Como vou falar pros meus pais? Aliás, quero contar pra todo mundo. Mas,
dizem que não convém antes do terceiro mês. Quem irá me segurar? Quem serão os
padrinhos? Será que preciso guardar dinheiro para a festa de 15 anos? E a matrícula da
escola? Vai demorar para eu ter netos? Pra isso precisará de um namorado. Não estou
preparado para ser sogro de ninguém. Que voz que essa pessoa vai ter? Como dar
banho? E se alguma coisa acontecer? E se tiver alergia como eu? Será que vai ser
morena como a mãe? Ou com os cabelos crespos que eu não tenho mais? Será que
terá todos os dedos dos pés e das mãos? Será que está bem preso ao útero? E agora? E
agora?
Calma, pode ser que eu acorde. Pode ser um sonho.
Não parece ser. Se alguém estiver lendo tudo isso, é porque provavelmente não seja
um sonho. Ora, penso, logo existo; parafraseando Descartes, penso, logo não é um
sonho. Será?
Estou longe, queria estar perto. Voltei a olhar para o celular de segundo em segundo
para ter notícias: agendei uma consulta, marquei um exame, suspendi a bebida,
já tomei o ácido fólico, não podemos comer sushi, está tudo bem. Coisas que a
minha mulher vai me contando ao longo do dia.
Eu queria entrar dentro dela, pra perguntar se está tudo bem mesmo diretamente ao
bebê, que ainda nem virou bebê. Queria ver as mitoses funcionando em ritmo
acelerado. Queria saber o que o ele acha de mim, se estou acertando como pai, como
fazer para não traumatizar, pra proteger, pra nutrir.
Estes dias têm sido apenas de pura idiotice. Difícil pensar em muita coisa que não
tenha a ver com esta criatura sem forma que ainda está no primeiro mês de uma
existência que eu quero que seja eterna.
Pura idiotice.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19


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