Resolvi que vou escrever, mesmo sem muita vontade de escrever. Mesmo gostando
(se é que se percebe), às vezes, não acho algo que realmente pareça suficientemente
interessante para se escrever. Creio que no futuro deva evitar este tipo de confissão.
Assumir fragilidades, ou demonstrá-las, talvez não seja a melhor alternativa.
Aí está uma lembrança que me veio agora. Surgiu, neste instante, como um livro
empoeirado, achado no fundo da estante. Isso foi no século passado, há umas três
décadas. (Não acredito que eu já possa contar histórias de três décadas atrás, mas,
enfim.)
Pois bem, estava iniciando o primeiro ano do segundo grau, no Colégio Nossa Senhora
da Glória em Porto Alegre. Época em que todos os finais de semana haviam festas de
“Quinze Anos” pra ir. Bolo Vivo, valsa, sapatinho, cerveja escondida, porres
disfarçados. (Espero rever este post quando tiver filhos, e me lembrar de proibir-lhes a
leitura). Nossa turma de aula recebeu novos colegas, outros nos deixaram.
Tinha aquela menina nova que ficava me olhando. Usava aparelho, mas sorria. Talvez
eu fosse um pouco inseguro na época. Aliás, acho que continuo. Disfarço melhor
agora. De qualquer forma, “gostei” da moça. Não tinha certeza se eu teria alguma
chance.
Eu já tinha esta mania de escrever. E escrevi. Não só escrevi, como fiz um desenho da
guria (eu quebrava o galho desenhando), e sobre o desenho escrevi. Juro que não
lembro o que escrevi, mas, certamente eram coisas melosas, exageradas, e,
certamente ridículas. Nas aulas de Literatura Brasileira, aquela legião de poetas e
autores românticos e boêmios, que sofriam de amor e morriam antes dos 30 de
tuberculose, eram modelos que me serviam.
“Bocabertice” minha. Desenho, texto, e todas as suas revelações melosas foram
“interceptadas” pelo meu pai. Ponte Que Partiu! Não preciso nem escrever, ou
descrever, a raiva que senti de mim mesmo, com tamanha falta de cuidado. Mas, a
oportunidade valeu-me uma “resenha” básica. (“Resenha” é a forma, digamos,
carinhosa com meus irmãos batizaram os intermináveis discursos do pai.)
Provavelmente tenha durado algo como 72 horas de ponderações e conjecturas sobre
relacionamento, e outras coisas que mal ouvi. De tudo, o que ficou foi apenas a
orientação de que: “as mulheres, não querem homens frágeis, elas querem que o
parceiro seja forte e lhes dê segurança!” Claro que ele não usou estas palavras, ou
talvez tenha usado, não lembro. Mas, a mensagem foi esta.
Meu pai, agora é advogado, mas era professor naquele tempo, e trabalhava há um
tempão com adolescentes, diretor de escola, e talecoisa. Acontece que os pais, que
são professores, nunca usam com os próprios filhos o que usam com os filhos dos
outros pais. Então, como ele disse pra eu não entregar aquela “declaração”, não houve
dúvida: entreguei! E, a despeito das orientações paternas, golaço!
Meu relacionamento com a guria de aparelho durou, no máximo, vinte minutos.
Naquela época, era o tempo máximo que poderia durar meus relacionamentos, afinal,
sempre acreditei em relações duradouras.
Quando eu tiver um filho, homem, macho alfa, provedor, bisneto do Adroaldo, vou me
lembrar de dizer exatamente a mesma coisa pra ele! Algo do tipo, “não te entrega guri,
deixa estas gurias correrem atrás!” Mas, espera-aí-um-pouco… Será que o pai não quis
que eu entendesse o contrário, justamente por saber que todo adolescente entende
exatamente o contrário?
Pensando bem, acho que ele falou algo que não fazia. Tenho quase certeza que ele
falou sem sentir. Conheço ele, conheço minha mãe. É, ele falou sem grandes
convicções. Falou uma coisa, querendo dizer o contrário. Ele pensava naquela época,
a mesma coisa que penso hoje. Tenho certeza que ele pensa como eu.
As mulheres querem sim homens que lhes proporcionem segurança. Mas querem
mais, muito mais. Querem a segurança que vem da confiança. Confiança em dizer o
que se pensa, como pensa, seja bom ou ruim, seja certo ou errado. Confiança no
momento de revelar o choro, de estender a mão, de oferecer o ombro. Segurança
para, enfim, demonstrar e assumir fragilidades. Segurança de que um e outro, terá o
conforto do olhar, do sorriso, da palavra, ou do silêncio.
Pronto, pra quem não tinha o que escrever, volto, um pouco, a ficar em silêncio.
Preciso pensar um pouco mais sobre a complexidade disto tudo.
— *Post extraído do blog ‘Opiniático Reflexivo’ em 29/03/2026 às 21:19* — ##
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