O inverno é muito rigoroso no Rio Grande do Sul, mas, o calor do verão é mais rigoroso
ainda. Lembro do primeiro aparelho de ar condicionado que tivemos em casa. Não era
comum naquela época. O ano deveria ser 1985. Para instalar aquela geringonça foi
preciso abrir um enorme buraco na parede, construir alguma estrutura, e uns três
homens para fixá-lo. Quando estava ligado a casa inteira
vibrava, parecia movido à diesel. Ele foi instalado no
quarto dos meus pais, que acabava funcionando como
sala-de-estar, porque lá também estava a maior
televisão da casa – que deveria ter apenas 24 polegadas e
o tamanho de um fiat Uno – e mais tarde, onde ficava o
vídeo cassete, um luxo que demorou a chegar. Naquela
época, estes itens já nos colocariam numa faixa muito
pequena da população, meus pais tinham curso superior, tínhamos carro, dois
televisores, vídeo cassete, e claro, um ar condicionado./o:p
Na verdade, meus pais trabalhavam muito, três turnos. Nesta época, eram
professores, então, tudo era muito ajustado. Ainda assim, uma vez por mês,
almoçávamos numa cantina italiana; em casa, além da comida, tínhamos alguns
luxos, churrascos aos finais de semana, quando o refrigerante era liberado; estudamos
em escolas particulares, nem sempre com desconto; andávamos de carro; e tínhamos
uma boa casa, que inclusive, tinha ar condicionado./o:p
Neste ponto da vida, escrevo do sétimo andar de um bairro nobre do Recife. O verão
daqui é muito quente, quase tão quente quanto o de Porto Alegre. É janeiro, e lá fora o
calor é escaldante. Aqui o ar-condicionado. A TV tem algo como 32 polegadas, e é do
tamanho de um quadro com moldura. Não se tem mais vídeo cassete, é pelo
smartphone que escolho o que quero assistir, e transmito na televisão. Diferente da
Olivetti que tínhamos à época, escrevo em um computador portátil que fechado é um
pouco maior que um envelope./o:p
Reconheço os privilégios e bênçãos de se ter uma vida com muita dignidade. Fomos
privilegiados por termos pais que nos entregaram as melhores condições para que
fôssemos capazes de prover nossas próprio sustento. É o que temos feito, mera
retribuição.
Somos católicos, e nesta manhã, ao sair da igreja, observei uma senhora, neste calor,
deitada à porta, abraçada em dois cachorros doentes, talvez dividisse com eles a
própria comida. Pedia esmolas. Mais adiante, outra mulher mendigava. Passamos por
estas pessoas como se fossem parte da paisagem. Incrível como a misericórdia que
pedimos na igreja é tão difícil de entregarmos na rua, à poucos metros de onde
estávamos de joelhos dobrados implorando por algo que é tão difícil de entregar./o:p
Entrei no carro, liguei o ar condicionado, rapidamente estava termicamente
confortável. Resolvi ir ao mercado, iria fazer almoço em casa. Na cancela do Pão de
Açúcar mais uma mulher, semi deitada no asfalto incandescente, um filho nos braços,
pele enrugada do sol, olhar cansado, estendia as mãos pedindo a esmola que, pra
variar, não tinha./o:p
Olhei pra Deus ao meu lado. E aí? O que faço? Um silêncio incômodo./o:p
O mundo mudou nestes últimos 30 anos, mudou demais. Mas, pessoas continuam
congelando no inverno frio do sul, e derretendo no sol escaldante do nordeste, sem
que nenhuma dessas mudanças possa, enfim, acabar com esta miséria humana./o:p
Por óbvio o problema não é novo, nem simples, nem fácil. É cultural, sociológico,
político e econômico. /o:p
Por algum motivo, entendi que preciso fazer alguma coisa. Alguns de nós podem
passar a vida inteira confortáveis, com ar condicionado em casa, no trabalho, no carro,
e outros, derretem-se miseravelmente sem ter qualquer oportunidade. Afinal, o que
nos torna diferentes na origem? Que sorte é essa que nos faz nascer aqui, ou lá?/o:p
Preciso fazer alguma coisa. Estamos trabalhando nisto, Ele e eu.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19
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