59 dias – Feliz Ano Novo

Meu filho,
Hoje é o último dia do ano de 2025. Cheguei mais cedo à empresa e reservei essa meia
horinha para começar esta série de cartas endereçadas a ti. Talvez outras pessoas
venham a ler; talvez não. Tua mãe, certamente, lerá.
Não sei exatamente o que nos espera no futuro. Talvez eu leia algumas delas ao lado
da tua cama, para embalar o teu sono. Talvez eu apenas as guarde numa cápsula do
tempo, para que, mais velho, possas lembrar do teu pai.
Começo a compreender melhor a paternidade à medida que a tua presença se torna
mais real no meu dia a dia. É uma sensação estranha — como se tu estivesses, neste
momento, em outro plano. Aqui, enquanto escrevo, é como se tu me ouvisses. Como
se escutasses meus pensamentos.
Ingenuamente, outro dia, falei para a mamãe:
— fala pro Mateo se comportar.
(Risos).
Ela me respondeu:
— fala tu, ele está aí na barriga, já consegue ouvir!
Foi ali que me dei conta: tu estás aqui mesmo.
Mas não era exatamente sobre isso que eu queria falar.
Eu dizia da minha compreensão inicial da paternidade. Agora, olho para a linha da
vida — tudo o que vivi e experimentei; olho para o mundo, para as possibilidades, para
as dificuldades e também para as facilidades — e fico pensando em quantas coisas eu
preciso te dizer. Não são poucas. E não sei se vão resolver, porque não há como
impedir que tu vivas a tua própria vida.
E isso é difícil de assimilar. Difícil de aceitar.
Como fazer com que tu sejas forte, construtor da tua própria história, se tudo em mim
quer te mostrar os atalhos, te contar os erros, te proteger dos sofrimentos?
Ponte Que Partiu!
Então vou fazer a minha parte. Vou escrever algumas coisas. Conversar contigo sobre
outras. Deixar que tu observes minhas falhas, avalies meus acertos — e tomes tuas
próprias decisões.
Não posso negar, nesse tom confessional, que ficaria muito satisfeito se tu
concordasses comigo.
(Risos).
Mas não vais. Porque vais crescer. E, inevitavelmente, transformar a mim e a mamãe
em velhos ultrapassados como são o vovô e a vovó.
Só que não! Nunca me senti tão perto de entender um e outro. (Mas isso é pra outro
dia!)
Hoje à noite, a mamãe e eu vamos jantar juntos — só nós dois. Sem ninguém por
perto. Vamos brindar (sem álcool) à tua vida, à vida dos teus irmãos, à nossa família.
Vamos subir até o alto do prédio, olhar os fogos, o mar no horizonte escuro da meia-
noite, e agradecer a Deus pelo presente de estarmos juntos.
E o nosso maior desejo para o ano novo será sermos os melhores pais que
conseguirmos ser.
Te amo.
Até o ano que vem.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19


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