52 dias – Memórias

Meu filho,
A cada dia que passa, a nossa expectativa cresce.
Ela não faz barulho, mas ocupa espaço.
Tua mãe me contou que, a partir da trigésima segunda semana de gestação, as malas
da maternidade — as dela e as tuas — já deveriam estar prontas, no carro, com o
endereço salvo no GPS. Essa informação caiu em mim de um jeito diferente. De
repente, tudo ficou mais perto. Confesso: talvez eu ainda não esteja pronto pra essa
corrida. Prefiro que esperes só mais um pouquinho.
Chamamos alguns amigos para virem à nossa casa para um tradicional Chá de Bebê.
Uma confraternização simples, dessas que celebram antes do teu nasimento aquilo
que já é amor. E que, claro, arrecadam o item que tu mais consumirás nos primeiros
dias: fraldas.
Mas junto com os convidados, voltam também os meus medos silenciosos.
Como trocar uma fralda sem te machucar?
Como dar um banho sem errar a temperatura da água?
Como te deitar no berço e confiar no silêncio da noite?
Como garantir que dormirás seguro?
Como te proteger das tomadas elétricas, dos vidros quebrados, de um coração
partido?
Até agora, toda a responsabilidade pelo teu desenvolvimento e pela tua sobrevivência
está nas mãos da tua mãe. E que mãos seguras! A partir do teu nascimento, em alguns
momentos, tu estarás nas minhas. E isso me assusta — não por falta de vontade, mas
pelo tamanho da tarefa. Talvez pequena em peso e comprimento, mas, gigante diante
da vida.
Já conduzi equipes, empresas, decisões difíceis. Gerenciei pessoas, riscos, serviços.
Nada disso se compara ao que tu representas.
Tu serás o maior desafio da minha vida.
Enquanto bebê, os cuidados com o teu corpo: segurar-te no colo, velar teu sono,
proteger teu silêncio, dar-te banho com mãos firmes e coração trêmulo. Depois — e de
forma ainda mais definitiva — os cuidados com a tua mente e o teu espírito, porque sei
que tudo ficará registrado em ti, como marcas que o tempo não apaga.
Vais perceber que minha barba já é branca e que o cabelo me deixou cedo. Tu estás
chegando na segunda metade da minha vida. Talvez tenhas menos tempo comigo do
que eu tive — e ainda tenho — com teu avô. As lembranças do meu pai vivem dentro
de mim. As minhas, tudo o que eu puder, tiver paciência e disciplina, deixarei aqui,
nestas palavras.
Assim, quando um dia quiseres saber o que eu fazia enquanto tu ainda não vinhas,
saberás:
eu pensava em ti.
Quase o tempo todo.
Te amo.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19


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