49 dias – Bisavós **Data:** 10 de January de 2026 às 20:43 **Autor:** Fábio Augusto

de Souza —
Meu filho,
Hoje foi mais um dia em que estávamos aqui organizando tudo para receber nossa
família e nossos amigos para o teu Chá de Bebê. Tua mãe adora esse tipo de coisa. A
melhor parte desses pequenos eventos talvez seja justamente a preparação. Todos os
dias surgem novos planos, novos detalhes: cardápio, bebidas, acessórios, atividades,
convidados, confirmações.
Aproveitamos para almoçar no meio do roteiro de compras, num restaurante novo
aqui do bairro, do tipo self-service.
A comida está fria, comentou tua mãe, sem reclamar.
Lembrei, quase imediatamente, da dona Iolanda — tua bisavó, mãe da vovó Maris.
Acho que, quando leres por ti mesmo estas memórias, vais achar curioso imaginar que
eu também já fui criança.
Passei uma grande — talvez a maior — parte da infância com a tua bisa. Foi ela quem
despertou em mim a conexão com nossos antepassados: as histórias da família que
veio da Itália; os relatos sobre a vovó Delfina, que parecia ter sido uma espécie de
cuidadora; as lembranças da ferraria do vô João Batista; e as histórias de quando a
mãe dela engravidou aos 16 anos, casou e acabou isolada da própria família por dez
anos, até que o marido pudesse buscá-la de volta.
A vó Iolanda saiu de casa já adulta, ficando mais tempo para ajudar a família com os
irmãos menores. Depois foi para a capital, Porto Alegre, morar com as irmãs da Santa
Casa de Misericórdia, onde trabalhou como técnica de enfermagem — uma formação
conquistada a duras penas, por conta da baixa escolaridade.
Muita coisa aconteceu até ela se tornar a matriarca da família. Até o vovô Aldo seguia
as regras rígidas da vó Iolanda. Ela não era fácil com ninguém. Exceto comigo.
Não que ela não tenha impresso em mim um código moral. Lembro daquele beliscão
discretíssimo na missa de formatura da vovó. Mas lembro muito mais do acolhimento
depois de um machucado, das conversas enquanto ela tricotava; lembro de assisti-la
sentar-se ao lado do telefone fixo (que naquela época ficava preso na parede por um
fio), abrir a grande caderneta no colo e fazer uma ronda virtual, ligando para amigas
e parentes para saber notícias.
Um dia, a vó Iolanda resolveu subir numa escada de obras, de quatro apoios, nos
fundos da nossa casa. Provavelmente queria atender alguma necessidade secreta e
urgente de ter notícias nossas. A escada caiu. E a bisa caiu junto. E ela se quebrou.
Toda. Em muitas partes. Lembro ainda, na névoa da memória, dela sendo levada num
Chevette dourado. Depois, lembro de dar-lhe café em canudinho ao lado da cama.
Uma sobrevivente que viveu quase 90 anos, apesar de dezenas de intervenções,
cirurgias e um sem-número de doenças.
Já falei: ela era enfermeira. Muitas vezes, quando estávamos doentes, eu ouvia seus
passos subindo as escadas e já sabia que receberia uma dolorida injeção. Tu já sabes
como são doloridas essas agulhas, não é, meu filho?
A bisa trabalhava no hospital, no setor de pediatria. De lá também vinham inúmeras
histórias: das vezes em que ela batizava pessoalmente crianças prematuras ou
doentes, para garantir-lhes a salvação; de quando atuou como instrumentadora; das
chefes rigorosas; da caminhada até pegar o bonde; e de tantas outras coisas.
Nestes dias em que contamos os dias regressivamente para a tua chegada, lembro da
bisa dando conselhos para a vovó Maris quando ela estava grávida do tio Rafa e do teu
dindo Cássio. Eu tinha sete ou oito anos. As instruções para produzir mais leite —
aveia, água de arroz e outras coisas intragáveis; as discordâncias com o Dr. Lousada;
as recomendações para banhos, curativos, trocas, temperaturas.
Olho para o teu trocador, a tua cômoda, tuas roupinhas, os preparativos da tua mãe, e
vejo a vó aqui conosco, dobrando com seus dedos tortos cada fralda tua. Acredito que
ela não esteja apenas na minha memória. De alguma forma, sinto ela aqui.
Nos últimos dias, ela queria voltar para a casa da infância; já não reconhecia aquela
que construiu junto com o véio Chico. Apenas eu me despedi.
Tenho muitas histórias para te contar, Mateo, dessas quatro pessoas: a Iolanda, o
Chico, o Adroaldo e a Terezinha. Vivi e convivi com todos eles. Papai do Céu vai nos dar
uma forcinha extra, e teremos tempo para a bisa Terezinha ainda te dar uma bênção
pessoalmente, porque, de todos os meus avós, ela ainda está conosco.
Ah, e por que lembrei da vó Iolanda? Porque, quando a mamãe comentou sobre a
comida fria, lembrei do que a tua bisa dizia:
Por mim, eu comeria direto das panelas, ainda no fogo; gosto de comida bem
quente!, com ênfase no bem.
Quando, mais tarde, leres o que fazíamos enquanto tu não vinhas, saberás que uma
das coisas era revisitar, por tua causa, as nossas próprias histórias.
Te amo.
— *Post extraído do blog ‘Opiniático Reflexivo’ em 29/03/2026 às 21:19* — ##


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