45 dias – Escolhas

Meu filho,
Ontem fiquei pensando sobre a efemeridade da vida. (E sim, tu vais precisar correr
atrás de vocabulário o quanto antes.) A verdade é simples e profunda: por mais longa
que seja, a vida é sempre breve. É como um sopro — um sopro precioso — que passa
por nós antes que percebamos. E, assim como escrevi sobre a felicidade, talvez a vida
também tenha um propósito que se encerra em si mesma.
A finalidade da vida pode ser apenas viver.
A finalidade da vida pode ser a própria vida.
Nada mais simples. Nada mais grandioso.
E o nosso compromisso não deve ser apenas com a nossa existência individual, mas
com essa história maior da qual fazemos parte — uma história cujas origens ainda não
compreendo totalmente. Não tenho explicações empíricas (vai atrás do vocabulário, já
disse!).
Mas sei que, se há compromisso, há igualmente uma grande oportunidade: desfrutar
deste tempo que nos foi dado.
Já te falei sobre equilíbrio, mas hoje quero te mostrar outra perspectiva. Sempre
imaginamos que nos movemos apenas no espaço: para frente, para trás, para cima,
para baixo. Mas existe também um plano temporal, onde usamos adjetivos de espaço
para compreender o tempo.
Tu nunca vais encontrar tua futura namorada no aeroporto Internacional dos
Guararapes, em Recife, se não combinares antes o dia e a hora certos. Ela não estará lá
se não for no tempo certo.
O problema, meu filho, é que não dá para marcar um encontro na semana passada.
Nem no mês passado. Nem em 2009, ou 17, quando eu nem sonhava contigo. O tempo
só caminha para frente. (E caminhar, veja só, é um verbo que presume
paradoxalmente o espaço, e não o tempo.)
Assim, todos os lugares que tu queres conhecer precisam caber no teu tempo. Todas
as pessoas que desejas encontrar, todas as profissões que quiseres experimentar —
tudo terá de caber nesta vida, neste tempo que corre apenas em direção ao futuro.
E aí surge um dos desafios mais profundos que tu enfrentarás: as escolhas.
Todos os dias, durante toda tua vida, haverá diversos Mateos do futuro disputando a
tua decisão de agora. Haverá o Mateo com esposa, três filhos e dois cachorros; o
Mateo que viveu solteiro; o Mateo que viajou o mundo; o Mateo que só conheceu o sul
do Brasil; o Mateo astronauta; o Mateo músico; o Mateo médico; o Mateo advogado; o
Mateo professor; o Mateo desempregado; o Mateo feliz; o Mateo triste.
Cada um desses caras só vai existir conforme a decisão que tu tomares hoje.
Escolher um deles significa encerrar, instantaneamente, todos os outros.
E isso também elimina tudo o que o Mateo que tu não escolheste poderia ter vivido.
Tuas escolhas serão sempre dizer sim para uma coisa e não para todas as outras. As
perdas, portanto, serão infinitamente maiores, porque jamais poderás escolher tudo e
perder apenas uma coisa.
E então, tu me perguntas: E aí, pai, o que eu escolho?
Calma. Por alguns meses — talvez breves anos — a mamãe e eu escolheremos por ti: o
que tu vais comer, vestir, onde vais estudar, por onde vamos caminhar. Uma imensa
responsabilidade pra nós.
Mas, cedo demais, chegará o dia em que tu mesmo terás de fazer as tuas próprias
escolhas.
O que eu pretendo é te apresentar, pouco a pouco, os diferentes Mateos que surgirão
no teu horizonte. Tentar eliminar, por mim, um ou outro mais sombrio. Te mostrar a
diferença entre o certo e o errado; o bom e o ruim; o fácil e o difícil — embora eu
acredite que a dificuldade é superestimada, quase nunca verdadeira quando vista
pelo plano do tempo (mas isso fica para outro dia).
Tudo isso, claro, com base no que nós vivemos e conhecemos.
Uma garantia eu te dou: o papai e a mamãe são as pessoas que sempre vão querer
que tu escolhas ser o melhor Mateo que tu quiseres ser.
(E esse assunto rende muitas páginas de opiniões e reflexões. Fica pra depois!)
Te amo.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19


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