Augusto de Souza —
Meu filho,
Antes de ser teu pai, eu sou padrasto dos teus irmãos.
Ou seja: quando a mamãe e eu ficamos juntos pela primeira vez, ela já tinha teus
manos. Naquela época, o Brian estava com uns 9 anos, e o Lucca tinha apenas 2
aninhos.
Duas crianças em momentos completamente diferentes — e que ocuparam grande
parte da minha vida e do meu amor. Nesse tempo, eu vinha pra casa apenas nos finais
de semana. E nem sempre os manos estavam, porque também passam dias com o
papai deles.
Cada um se relaciona comigo de um jeito. São pessoas distintas, com personalidades
diferentes, histórias familiares próprias, em idades e fases absolutamente diferentes.
O maior, como gosto de chamar o Brian no meu velho sotaque gaúcho, sempre teve
um jeito mais adulto. Desde pequeno parecia compreender com clareza os papéis de
cada pessoa na vida dele: o pai, a mãe, o avô e o marido da mãe dele. Sempre
respeitou isso. E, de algum modo, sempre protegeu sentimentos e fragilidades —
mesmo aquelas que ninguém dizia em voz alta.
Com ele, nossa relação sempre foi construída no argumento. O Brian é especialmente
inteligente, forte de personalidade, questionador, argumentador. Me lembra muito a
mim mesmo nessa idade — e olha que, quando tu nasceres, ele já terá 16 anos, o auge
da adolescência crítica, vigorosa, inquieta, em um mundo digital que eu não domino
tanto quanto gostaria.
É claro que eu dou meus pitacos. Com o Brian, às vezes, temos longas horas de
resenha, e das mais acaloradas, sobre absolutamente tudo: da matemática à
filosofia, da história à política, do profano ao divino. Às vezes, os dois bravos. Às vezes,
mansos. Mas sempre verdadeiros.
Tenho esses momentos com ele porque teu irmão mais velho precisa saber o que o teu
pai pensa, sente e crê. Porque ele também será um ponto de apoio pra ti no futuro. Ele
também terá impresso nele um pedaço de mim — não pela genética, mas pela
convivência intensa.
Ele ainda não sabe, e eu não vou lhe atribuir responsabilidades que não precisa
carregar, mas naturalmente te protegerá, te orientará e te cuidará. E esse sentimento,
que nasce entre irmãos, às vezes chega bem perto da fronteira da paternidade.
Eu sei disso porque sinto assim pelos teus tios — meus manos mais novos.
Sou antecipadamente grato ao Brian por me representar em alguns momentos do
futuro.
Já o Lucca bom, o Lucca é a criança mais afetuosa, carinhosa e amorosa que eu já
conheci. Desde sempre veio pra nossa cama nos dias de sono agitado. Desde sempre
gostou de colinho, de cavalinho, de um carinhosinho. Mas pense num guri intenso!
Brabo quando precisa. Forte de espírito. Um coração enorme.
Teu mano tem valores morais muito, muito bem definidos para alguém tão pequeno.
Tem uma capacidade de relacionamento e liderança que salta aos olhos de qualquer
um.
Ele tem uma coleguinha que tem uma característica especial na escola. Ela precisa
usar um andador para caminhar. Todos os dias, o Lucca a espera no portão para ajudar
a levar o material dela até a sala.
Mateo, que criança faz isso?
Quem abre mão de correr, brincar, se atirar no pátio, só para esperar com gentileza
alguém que precisa de ajuda?
Pois o teu irmão faz.
Ele também é genioso e teimoso — como era o véio Chico, teu biso. Não por acaso, os
dois nasceram no mesmo dia, separados por mais de 80 anos.
E tu, meu filho como serás?
Terás a serenidade da mamãe ou a cólera eventual do papai? Serás mais introspectivo
ou expansivo? Falarás pelos cotovelos, como o vovô e eu, ou serás pontual, preciso,
cirúrgico?
Não sei. Mas estamos aqui, enquanto tu não vens, te esperando — com uma
curiosidade amorosa e uma expectativa alegre que crescem a cada dia.
Te amo.
— *Post extraído do blog ‘Opiniático Reflexivo’ em 29/03/2026 às 21:19* — ##
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