Meu filho,
Queria te falar sobre sorrisos. Ou sobre sorrir.
Estávamos aqui olhando algumas fotos, e as melhores foram aquelas em que a
fotógrafa flagrou a mamãe com o sorriso largo, daqueles que precisam de toda a boca,
todos os dentes, toda a alma. Um sorriso que entrega tudo. Entrega um momento em
que tudo está ali. Aqueles instantes que a gente tenta prolongar.
Há muito tempo eu sei quando a mamãe está sorrindo, mesmo que eu esteja falando
com ela apenas por uma ligação telefônica. Eu já sabia quando ela sorria quando
ligávamos um para o outro, mesmo antes de sermos um do outro.
Todos os dias, tento de alguma forma fazê-la sorrir. Não apenas por ela, mas por mim.
É uma espécie de carga rápida.
Enquanto isso, aqui em casa, pensando sobre o sorriso da mamãe, a vovó mandou
algumas fotos antigas. Muito antigas. Nelas, o papai tinha uns dois ou três anos. E sabe
o que havia em uma dessas fotos?
O sorriso da vovó.
Um sorriso assim, largo, com a boca toda, todos os dentes, toda a alma.
Naquela foto, a vovó tinha pouco mais de vinte anos. Havia alguma comemoração
acontecendo. E isso me fez lembrar de um outro sorriso dela.
A casa ainda cheirava à tinta, embora eu não lembre exatamente do cheiro. Mas era
nova. A cozinha era típica dos anos 80. Fórmica brilhante, amarela, instalada sobre
azulejos floridos; um fogão esmaltado; uma mesa redonda de abrir, que depois
serviria como mesa de estudos no meu quarto de cerejeira.
A vovó, hoje eu sei, era quase uma menina. Usava um lenço de seda, cetim ou algo
parecido na cabeça, enquanto preparava o almoço. A claridade entrava pela janela. A
esperança se equilibrava em O Bêbado e o Equilibrista, que ela ouvia. Não sei se na TV
ou no rádio, provavelmente na TV. Nosso país passava por novas transformações.
Ensaiávamos a saída do regime militar. Havia um movimento lá fora que eu não
percebia entrar em casa.
No mundo real, nas bordas da cidade, as lutas de poder não entram nas casas. Só os
efeitos delas.
Mas não é disso que eu quero falar.
Naquela cozinha, naquela casa, naquela manhã, com a Elis¹ ao fundo, a vovó me olha.
Não diz nada. Apenas sorri. Um sorriso largo, com a boca toda, todos os dentes, toda a
alma.
É uma lembrança distante. Talvez com alguns detalhes imprecisos. Mas é uma
lembrança verdadeira.
Eu vi aquele sorriso outras vezes. Acho que menos do que a vovó se permitiu ao longo
da vida, enquanto se preocupava demais conosco, com tudo, com todos.
Tenho certeza, meu filho, de que não haverá sorrisos mais largos, com a boca toda,
todos os dentes, toda a alma, tanto da vovó quanto da mamãe, do que aqueles que
elas darão quando estiverem contigo.
Te amo.
¹ Elis Regina (1945–1982) — Cantora brasileira, considerada uma das maiores
intérpretes da música popular brasileira. A canção O Bêbado e o Equilibrista,
composta por João Bosco e Aldir Blanc e eternizada na voz de Elis, tornou-se um
símbolo do período de abertura política no final da ditadura militar no Brasil. Lançada
em 1979, a música expressa, de forma poética e sensível, a esperança, a dor e a
resistência de um país que ensaiava o retorno à democracia, razão pela qual ficou
conhecida como um dos hinos da anistia e da redemocratização.
A vovó, o papai e a mamãe.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19
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