Meu filho,
Deixa eu te falar sobre uma personagem que estará muito presente na tua vida.
Já te contei, em alguma de nossas cartas, que a mãe da tua mãe foi embora muito
cedo. Papai do Céu tinha outros planos para a vovó Valda, que, tenho certeza, está
conosco agora, às voltas com os preparativos para o teu nascimento.
Não sei bem se tenho o direito de contar a história da família da mamãe, ou a dela
própria. Mesmo assim, vou me arriscar. Sei que ela mesma te contará tudo isso, antes
mesmo de saberes ler.
Alguns dizem que o lugar onde nasceram o vovô Joaquim e a vovó Valda é o paraíso.
Um lugar onde, do alto, é possível olhar o horizonte até o ponto exato em que o mar e
o céu, ambos azuis, se encontram numa linha delicada.
Garopaba.
Há ali uma amostra inteira da criação: mares revoltos e mares tranquilos; areia branca
como a neve e rochas firmes; verde por todos os lados. Ainda há verde por lá! Há
também o povo brasileiro do qual descendemos, portugueses, indígenas, africanos,
europeus, todos misturados.
Tu também serás parte de Garopaba, filhote.
A vovó tinha olhos azuis, pele clara e uma infância dura. O vovô, ao contrário, é
moreno, olhos escuros, de traços marcados, moldado pela vida campesina. A mamãe
nunca me contou exatamente como eles se conheceram, se apaixonaram ou se
casaram. Mas isso aconteceu. E foi suficiente.
A primeira filha saiu à mãe: pele, olhos, feições.
O segundo filho saiu ao pai: pele, olhos, feições.
A terceira filha, nem eu nem a mamãe conhecemos. Imagino que, para teus avós, essa
tenha sido a experiência mais dura de suas vidas: perder uma filha ainda na primeira
infância, de uma doença repentina, avassaladora.
Mas a vida continua, meu filho.
O vovô tornou-se motorista de ônibus. Nenhuma multa, nenhum acidente, cruzando o
Brasil, a América do Sul inteira. Até o Chile, contou-me ele há pouco tempo, orgulhoso
de sua trajetória impecável.
A vovó foi mãe. Às vezes em tempo integral; às vezes dividindo-se como operária
numa fábrica de massas do outro lado da estrada, já aqui, nas bordas da capital.
Trabalho duro, pouco dinheiro, imenso amor pela família.
Doze anos depois da primeira filha, talvez de forma inesperada, a mamãe nasceu.
Morena de pele e olhos como o pai, mas com feições suaves e arredondadas. Linda
desde sempre, pelo que sei, pelo que vi e pelo que vejo.
Assim como tu, meu filho, a mamãe era o bebê da casa.
Imagino que uma menina de doze anos, ao ganhar uma irmãzinha, transforme-a em
boneca, em primeiro bebê, ensaiando a maternidade que viria mais tarde.
E nessa ebulição de vida, de trabalho, de venturas e desventuras, de alegrias e
tristezas, veio a doença da vovó. Menos avassaladora, talvez, mas profundamente
cruel.
A doença passou a viver com a família. Como mais um membro à mesa. Uma sombra
constante, rondando os cômodos da casa simples, falando em sussurros.
Cruel, mas também educativa. Não há como dividir a vida com uma doença
persistente sem ser transformado por ela. Eu não sei como é isso, filhote. Mas a
mamãe e a titia Noêmia sabem.
Noêmia. Chegamos a ela.
Muito cedo, parece ter deixado as brincadeiras para assumir o papel de mãe da mãe. O
vovô, homem de estrada, nem sempre estava presente para comandar a família. E a
liderança coube à titia Noêmia. Ela cuidava da vovó, cuidava da mamãe e cuidava
também do titio e de sua rebeldia. Cada um construiu sua própria personalidade.
Aqui entra um pouco da minha imaginação. Devem ter existido namorados, amores
juvenis. Não sei. Sei que houve o grande amor: o titio Murilo, que também carrega
suas próprias histórias de superação. Mas isso fica para outro dia.
Aceleraram o casamento. Aceleraram a paternidade. Era importante que a vovó
estivesse presente no casamento da filha mais velha e no nascimento da primeira
neta. E esteve. Todos na mesma casa cheia. A mamãe dormia no sofá da sala. E a vida
seguia.
(Imagine quantos privilégios tu tens, meu filho).
Até a despedida da vovó.
A mamãe queria estudar, queria a cidade, queria outra vida. O vovô quis voltar para o
paraíso da infância, para as raízes, para Garopaba.
Então, com pouco mais de vinte anos, a Noêmia, que já havia sido mãe de mentirinha
da irmã bebê, mãe da mãe por tantos anos, mãe da própria filha, tornou-se, mais uma
vez, mãe da irmã adolescente.
E o titio Murilo foi um paizão.
Essa história é linda, meu filho.
Nem a Noêmia nem o Murilo precisariam ter acolhido, adotado, assumido a
paternidade da mamãe, justamente no momento mais delicado da vida de alguém,
após perdas tão profundas.
Mas a titia tem um amor que ultrapassa o razoável. Um amor de mãe pela mamãe.
Ontem, quando a vi debruçada sobre a máquina de costura, brigando conosco para
não colocar tuas roupinhas delicadas na máquina, eu não via a titia. Eu via a vovó.
Sim, meu filho. A titia Noêmia poderia ser chamada de vovó Noêmia por ti. Porque o
amor dela não é apenas de titia. Tenho certeza disso.
Eu poderia dizer mil coisas. Falar da dedicação, da tolerância, da força, da abnegação.
Poderia falar das colônias de férias que ela proporciona aos teus irmãos, do
acolhimento silencioso nos momentos mais difíceis da mamãe, do cuidado firme e
discreto do titio Murilo.
Nada do que eu escreva seria suficiente. Mas o essencial é isto, filhote: a tua família é
muito especial. És herdeiro de uma linda história, de muitos amores, e de muito amor!
Te amo.
— *Post extraído do blog ‘Opiniático Reflexivo’ em 29/03/2026 às 21:19* — ##
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