Meu filho,
Hoje o assunto é um pouco mais racional.
Quero falar um pouco sobre o seu futuro. O mundo é um ambiente hostil. Já falamos
sobre isso. Mas, no geral, ele também é bom, e eu já falei sobre os privilégios que
temos. É justamente por isso que não podemos desperdiçá-los.
Todos os dias estamos consumindo recursos e riquezas. E, quando falo em riqueza,
não me refiro apenas a dinheiro ou ao fato de ser rico, mas a tudo aquilo que tem valor
ou poder de troca. O papai e a mamãe, por exemplo, têm como riqueza o trabalho, o
tempo e a cognição. Temos poucas reservas, ainda não o suficiente para
atravessarmos a vida sem trabalho, pelo menos por enquanto. Há pessoas que
possuem meios de produção, têm empresas, e nelas outras pessoas contribuem para
a produção e geram excedentes, o que lhes permite proporcionar riqueza para outras
pessoas. Outras, ainda, são apenas abastadas. Têm provisões e riquezas estocadas,
ativos que podem ser consumidos ao longo do tempo, garantindo a vida enquanto ela
perdura, às vezes por gerações.
Portanto, as formas de acumular, gerar e produzir riquezas são múltiplas. Algumas
vêm de gerações passadas e se multiplicam com o tempo. Outras são originais.
Algumas vêm do trabalho árduo. Outras, da mera sorte. É fato que há diferenças na
distribuição das riquezas, e isso gera conflitos em escalas individuais, familiares,
sociais e globais.
É um assunto longo e, para ti, que ainda nem chegaste, talvez seja enfadonho. Até aqui
estou apenas contextualizando. Teu pai entende que a riqueza, e o direito sobre ela, é
resultado do mérito de cada um, inclusive quando parte dela foi recebida por graça de
alguém ou do chamado destino. Ninguém está automaticamente condenado a viver
com o pouco que tem, assim como ninguém está definitivamente abençoado com
reservas infinitas.
São as nossas decisões que farão com que tenhamos mais ou menos conforto, e mais
ou menos consumo, ao longo da vida.
Há uma fábula de que eu gosto muito, e vou resumi-la:
A cigarra passou o verão cantando, aproveitando os dias quentes, sem se
preocupar em juntar comida. A formiga, ao contrário, trabalhou
incansavelmente, armazenando provisões para o inverno.
Quando o frio chegou e a comida faltou, a cigarra, faminta, procurou a formiga e
pediu ajuda. A formiga, então, lembrou-lhe que, enquanto ela trabalhava, a
cigarra apenas cantava. Assim, ensinou que é preciso pensar no amanhã
enquanto se vive o hoje.
Essa história costuma ser vista pelo olhar da formiga. Ela trabalhou incansavelmente,
mas não cantou. E perde quem não canta. Não há sensação, não há brilho, não há
desfrute no silêncio dos túneis do formigueiro.
Por outro lado, a cigarra, sem comida, morre. Miserável, mendigando às portas da
formiga.
Mais uma vez, filhote, o caminho do meio, o equilíbrio e a sabedoria serão
fundamentais para que tu não deixes de aproveitar os dias de verão, mas também não
sofras no inverno da vida.
Há quem prefira nem pensar no amanhã, porque, afinal, o futuro a Deus pertence,
como diz o ditado popular. Mas, quando o futuro chega sem ter sido preparado,
ficamos sem presente, porque não cuidamos, no passado, de quem somos hoje.
Então, agora, aproveite o colo do papai, os presentes dos vovôs, os mimos dos dindos
e dos titios. Brinque. Nós estamos aqui cuidando de ti. Mas, em seguida, estude, leia,
aprenda. Não estude apenas o que está no livro ideologicamente manipulado da
escola. Faça contrapontos, critique, reflita. Leia outros autores, controversos e
disruptivos.
Trabalhe com sabedoria. Não apenas fazendo e se concentrando somente na tua
atividade, mas olhando por sobre os próprios ombros. Avalie o que estás fazendo
como se fosses outro. Seja estratégico.
Ouse. A ousadia é a marca mais comum entre os grandes empreendedores. Não há
problema em fracassar. De verdade, não há. A vida vai continuar mesmo depois do
fracasso.
Não tenha pressa. Não antecipe decisões importantes. Por outro lado, não te escondas
nem te acovardes diante dessas mesmas decisões. E não gaste tudo o que tens. Não
pense apenas no Mateo de hoje. Pense no Mateo do futuro, no Mateo velho.
O papai só vai conseguir cuidar do Mateo criança, talvez do jovem. Mas do velho, meu
filho, esse é contigo.
Te amo!
— *Post extraído do blog ‘Opiniático Reflexivo’ em 29/03/2026 às 21:19* — ##
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