Meu filho,
Hoje tu estás à flor da pele da mamãe.
Eu fico aqui ao lado dela, tateando centímetro a centímetro aquela que, para mim, é a
maior barriga de grávida do mundo, tentando entender ou enxergar, pelo relevo
acidentado que provocas na barriga dela, que parte do teu corpo estamos tocando por
sobre a pele da mamãe.
Será que essa pontinha aqui são os pezinhos? Ou um cotovelo? O bumbum? A
cabecinha?
Mas, se for a cabeça puxa, ela ainda não está formada. Temos que cuidar. Parece
muito fácil tu te machucares, mesmo dentro da barriga.
Tua mala já está pronta. A da mamãe também. Mas há, na minha visão, ainda um
montão de coisas para fazer e para te dizer antes de tu vires, e eu não preparei uma
única muda de roupa para passar dois dias na maternidade.
Estivemos por lá, onde, em princípio, será a tua chegada, espiando se as coisas estão
em ordem.
Esta semana teremos mais um ultrassom. Mais uma consulta. Ainda estamos
negociando com as médicas. Talvez antecipemos teu nascimento. Talvez adiemos.
Talvez tu mesmo resolvas sair daí de onde estás, já apertado, te espichando em
movimentos que me assustam, porque parece que a barriga da mamãe vai explodir!
Eu sei que eu deveria estar escrevendo para um Mateo que já saiba ler, e que talvez
ainda vá reler estas cartas no futuro. Mas eu ainda tenho aquela sensação de que tu
estás num plano mais etéreo, mais espiritual, capaz de ouvir e saber dos meus
pensamentos. Não julgue teu velho. Somos assim, um tanto quanto idiotas mesmo.
Verás que, quando coisas incríveis e mágicas acontecem, nossa racionalidade meio
que é descartada.
Quando os primeiros raios do dia invadiram o quarto pelas frestas apertadas da
cortina, começando a nos acordar, abracei a mamãe, coloquei minha mão em ti, te
mexendo. A mamãe ainda ressonava. Tu te mexias de um lado para o outro. E
conversamos. Tu e eu, só nós.
Em pensamento.
Sobre estas coisas. Sobre amenidades. Sobre como será o teu rosto, se estará ou não
amassado, se tu irás chorar muito, se o teu berço ficará bom aqui, se eu terei que
trocar de lugar na cama com a mamãe. Será que a luz de cabeceira está muito forte?
Tenho que treinar como abrir e fechar o carrinho de bebê!
Anotação mental. Eu sempre perco minhas anotações mentais!
Aprender a colocar roupinha em ti. Outra anotação. Vou perder. Melhor registrar no
celular.
E vamos falando blá, blá, blá, blá uma conversa sem fim.
Hoje, sem conselhos, sem recomendações, sem filosofias. Um texto meio
desordenado, meio caótico, assim como estão meus pensamentos nesta fase. Mas,
vale te contar que, enquanto tu não vinhas, eu conversava muitas coisas contigo,
mesmo sem dizer nada.
Te amo.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19
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