30 dias – Mesa das Crianças **Data:** 29 de January de 2026 às 11:47 **Autor:**

Fábio Augusto de Souza —
Meu filho,
Ouça isso:
— Aqui é onde vai ser o super posto de gasolina.
— Certo, mas eu sou o dono do posto.
— Tá bom. Eu fico com o mega hotel, ali depois desse morro.
— Vamos subir um pouco mais essa rua? Pra deixar ela bem alta.
— Tá bom. Olha, vou colocar isso aqui embaixo.
— Legal. E se a gente emendar mais essas duas pistas aqui, vai ficar radicalmente alto.
— Vou pegar meu Mustang GL preto. Espera que vou colocar nele as rodas do Porsche,
que são muito mais largas.
— Boa.
— Mas e se a gente instalar asas no tanque de guerra? Aquelas asas de um avião bem
grande.
— Hum acho que ele é muito pesado. Melhor hélices. Vou tirar do helicóptero e dar
um jeito de colocar no teto do tanque.
— Boa. Aí eu vou pegar o motor elétrico daquele carro vermelho, tiro o teto do tanque
e coloco as hélices do drone.
— Não podemos esquecer de colocar um paraquedas também.
— Vamos fazer um lugar pra ele pousar em cima do posto de gasolina.
— E daqui ele pode disparar contra o hotel.
— Mas o hotel é móvel, ele tem pernas e um ataque mortífero.
— Sim, eu sei. Por isso a rampa tá bem alta e tem um looping no final.
— Temos que fazer um projeto legal pra isso
E por aí vai o Lucca, conversando com o próprio Lucca, numa conversa que não é dita
em voz alta, mas acontece inteira dentro da imaginação. Sentado no chão da sacada,
cercado de Hot Wheels, Lego e outros brinquedos espalhados daqui e dali.
O mundo das crianças é muito mais divertido. Tudo pode acontecer por lá.
Criatividade sem limites.
Há pouco tempo, o Brian fazia exatamente a mesma coisa. Há registros, provas
materiais das brincadeiras imaginativas do Brian. E, embora tu talvez não acredites,
meu filho, em algum momento o papai também montava pistas de ferrorama, criando
cidades inteiras com caixas, latas e pontes que existiam apenas na imaginação.
Eu não sei quando é que crescemos. Não sei quando nos tornamos adultos. Nem em
que dia acontece a última vez em que uma criança se senta no chão para brincar
sozinha, criando mundos inteiros sem precisar de ninguém.
Também não sei em que dia será a última vez que o Lucca vai brincar assim, no chão
da sacada.
E começo, aos poucos, a me despedir de ti na barriga da mamãe. Em muito breve
estarás aqui conosco. E eu já sei que sentirei saudades de ti ali dentro, das conversas
silenciosas, do pequeno alienígena se mexendo de forma quase monstruosa sob a
pele da mamãe.
Todos os dias são uma despedida.
E, ao mesmo tempo, um boas-vindas a uma fase que ainda não vivemos.
Uma nova descoberta.
Toda escolha é uma perda. Mas não precisamos viver olhando para o que deixamos
para trás. E é assim que as coisas são.
Tu ainda vais viver o tempo de sentar à mesa das crianças. A mesa onde serás servido,
onde não precisarás escolher demais, onde poderás brincar com os amiguinhos, criar
histórias improváveis, falar de hipóteses absurdas e mundos imaginários. Quase tudo
será permitido.
A mesa das crianças não parece, mas é a melhor mesa do churrasco.
A mesa dos adultos é, na maioria das vezes, muito chata.
Exceto quando os adultos resolvem, por um instante, agir como crianças.
Te amo!
— *Post extraído do blog ‘Opiniático Reflexivo’ em 29/03/2026 às 21:19* — ##


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