Meu filho,
Um dia tu conhecerás o tempo e o vento. Porque sim, o tempo voa.
Mas eu me refiro a O Tempo e o Vento, a obra de Érico Veríssimo. Um livro que
atravessa três séculos contando a história do Rio Grande do Sul. Para os mais
preciosistas, não se trata de um livro, mas de três: O Continente, O Retrato e O
Arquipélago. Enfim, apenas uma lembrança das leituras mais do que obrigatórias dos
vestibulares gaúchos.
Mas veja meu descuido. Nem quero falar do tempo, nem do vento, nem da obra, nem
do Érico. Quero falar, de passagem, é do Luiz. O filho do Érico.
Luiz Fernando Veríssimo morreu há pouco, ainda esses dias. Era cronista. E eu adoro
crônicas. Meus pensamentos são muito invasivos para ler ou escrever algo que vá
além de poucas páginas. E o Veríssimo, filho, era um dos melhores.
Um dia te contarei melhor, mas houve um tempo em que eu fui sócio de uma loja de
conveniência, dessas que tu ainda vais espiar do vidro do carro, nos postos de
gasolina. E lá estava o senhor Luiz Fernando, com a esposa, abastecendo o carro. Na
nossa loja, vendíamos exemplares da quase extinta Zero Hora, onde ele escrevia
diariamente. Foi um dos poucos autógrafos que pedi na vida.
E ainda não é desse dia que eu quero te falar, embora tenha sido bacana. Quero falar
de uma das crônicas dele. Confesso que não lembro bem do contexto geral, porque
crônicas, às vezes, perdem a validade.
Mas de uma citação eu lembro perfeitamente.
Teria sido dita por Adão, sim, o primeiro homem, feito do barro pelo próprio Deus,
para Eva, feita de uma de suas costelas, quando ele teve a primeira ereção da
humanidade:
— Chega para trás porque eu não sei até onde esta coisa cresce. (Veríssimo, 1999)
Rá!
Filho, saberás o que é uma ereção no tempo certo. Quando também descobrirás que o
teu “tico” serve para outras coisas além de fazer xixi.
E por que eu lembrei disso agora?
Porque de um ultrassom para outro, teu “peruzinho” dobrou de tamanho. Gigante!
Olhei para tua mãe e disse: Eu não sei até onde essa coisa vai crescer!
Machão do pai. Sim, meu filho, papai é um bobalhão as vezes!
Te amo.
Em tempo, Luiz Fernando Veríssimo (1936–2024) foi um dos mais importantes
cronistas brasileiros. A citação mencionada faz referência à crônica A Primeira
Ereção, publicada originalmente no final dos anos 1990, na qual Veríssimo imagina,
com humor e ironia característicos, a reação de Adão diante da primeira ereção da
história. A crônica não trata de sexualidade de forma explícita ou vulgar, mas usa a
situação como recurso narrativo para explorar o espanto humano diante do
desconhecido e da própria condição diante do ineditismo.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19
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