mais velho
Oi, Mateo, aqui quem fala é o mano bem mais velho
Você já deve estar cansado de ler as cartas tão melosas e emocionais do papai, então
eu, exercendo o papel de irmão mais velho, resolvi escrever uma carta.
Eu fui o primeiro filho da mamãe — possivelmente o que mais deu ansiedade para ela,
já que o seu pai conta cada hora do dia esperando você chegar — e logo vou ser o que
viu todos os outros nascerem. Ser um irmão mais velho não é fácil, mas é algo tão
especial que vale a pena todo o esforço. Quando o Lucca nasceu, eu tinha apenas sete
anos. Era um garoto e não entendi muito bem o valor de ter — e de ser — um irmão.
Com você é diferente.
No dia em que escrevo esta carta, estou completando 16 anos de vida (muita coisa,
né?), e você ainda nem nasceu. Dezesseis anos pode parecer pouco para os adultos ou
muito para as crianças, mas é um período de tempo extenso quando se fala em
diferença de idade entre irmãos. Pensa só: quando eu estiver terminando a faculdade,
você ainda nem vai ter saído do prézinho; eu posso estar terminando um doutorado
quando você entrar no sexto ano do colégio. Mas eu acho que, mesmo sendo o mais
velho de todos, o Lucca vai acabar assumindo muito mais esse pesado papel de irmão
mais velho do que eu.
Sabe, Mateo, o mano tem o sonho de estudar fora e, em cada decisão que toma, eu
sempre penso nisso. Eu e você tivemos a sorte de nascer em uma família muito
amorosa e que nos apoia em tudo. Desde cedo eu — e com certeza você no futuro —
tive a oportunidade de estudar em uma escola privada, com materiais e profissionais
muito qualificados. Mas não é só isso que importa. A sabedoria não vem apenas do
que você aprende e lê na escola, mas do que você faz além dela.
A mamãe sempre me incentivou a ler muito, e hoje eu adoro fazer isso. O Lucca ainda
tem preguiça de ler, mas, vendo o raciocínio lógico, a imaginação e a criatividade dele,
tenho certeza de que ele vai devorar livros no futuro. E o seu pai — que sempre discute
comigo os mais diversos assuntos, desde filosofia até economia — vai promover o
hábito da leitura na sua vida.
O ponto a que eu quero chegar é que eu vou acabar indo estudar fora em pouco tempo
e, provavelmente, não vou conseguir estar contigo quando você estiver lendo esta
carta por conta própria. É óbvio que vou visitar você, a mamãe, o Lucca, o papai e a
família inteira de vez em quando, mas nem sempre. Pode não parecer, mas isso
machuca bastante.
Eu não vou estar aqui com vocês no dia a dia e vou acabar sendo uma figura pouco
presente na sua vida. Não vou conseguir apoiar o Lucca em momentos de crise. Não
vou estar do teu lado para te ensinar a ler e escrever. Isso pode parecer exagero, já que
eu vou estar sempre a um voo de doze horas de casa, mas mesmo assim. Conviver
com irmãos é algo único. Ter um irmão significa ter sempre um ponto de apoio estável,
alguém com quem você pode brigar ou se estressar, mas que nunca vai querer o seu
mal.
Quando eu for embora, você ainda não vai ter nem dois anos. Apesar de eu sempre
estar disponível para você ligar para mim, é muito diferente de estar aqui contigo.
Tenho quase certeza de que, no futuro, vou olhar para trás e ver que tomei a decisão
correta ao aprimorar meus estudos fora do país, mas também tenho quase certeza de
que vou sentir um certo arrependimento por não estar aqui com vocês, nos momentos
bons e nos ruins. Vou sentir um certo arrependimento por não poder te acompanhar
de perto, como fiz com o Lucca. Vou sentir um certo arrependimento por não poder
auxiliar a mamãe e o papai contigo e com o Lucca.
Dito tudo isso, eu não vou voltar atrás no meu sonho, e espero, do fundo do meu
coração, que você tenha uma determinação tão grande quanto a que eu tenho em
relação ao meu. É muito difícil estudar fora. É muito difícil abandonar a família para
ir a um mundo novo, viver um certo recomeço. Por isso, determinação e resiliência são
essenciais — são coisas que todo homem precisa.
O mano te ama muito, mesmo sem te conhecer. Espero receber ligações toda semana
para falar com você, com a mamãe e com o mano Lucca. Espero que, no futuro, você
me veja como uma fonte de inspiração para seguir seus sonhos. Nunca deixe ninguém
te dizer que o seu sonho é bobo, impossível ou que você não é capaz de realizá-lo. A
determinação faz parte da essência humana. Na minha visão, pessoas que se
contentam com pouco, não arriscam e estagnam deixam de ser humanas: tornam-se
apenas corpos vazios.
Te amo. Beijos,
Mano Brian
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19
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