25 dias – Praia do Pinhal **Data:** 03 de February de 2026 às 11:25 **Autor:** Fábio

Augusto de Souza —
Meu filho,
Eu lembro muito pouco daquela casa, mas lembro bem.
Para chegarmos lá, íamos por uma estrada bonita; passávamos por um túnel verde,
formado pela copa das árvores. A casa era de madeira, simples. Os colchões tinham
molas, barulhentas, na época. Havia uma cortina que dividia a sala, criando um
terceiro cômodo improvisado. Dali, caminhávamos alguns quarteirões até o mar de
águas escuras do litoral gaúcho.
A casa de praia do vô Adroaldo, no Pinhal, era onde a família do meu pai se reunia. Era
onde reuníamos os primos da primeira geração. Um dia te falo deles (delas). Havia
um barco e, em vez de colocarmos o barco na água, colocávamos água dentro dele e o
transformávamos numa piscina improvisada.
Era janeiro, lembro bem, porque a bisa Tereza estava fazendo cinquenta anos. Ela me
olhou do alto dos seus 1,52m, com aqueles olhos esverdeados, e me disse:
A vó, agora, tem meio século!
Uau! Agora quem está com quase meio século sou eu! Rá!
Nós nos fantasiávamos para o carnaval. Brincávamos de teatrinho. De super-heróis.
Lembro do churrasco, da carne de ovelha, do barril de chope com a serpentina no gelo
e uma bomba manual.
Então, numa tarde — por algum motivo que não sei —, o vovô e a vovó me deixaram
com a bisa. Não lembro de detalhes de antes ou depois. Lembro de olhar pela janela, à
distância, olhos nos olhos da minha mãe, e de ver o carro virando a esquina e se
perdendo.
E eu chorei. Muito.
Eu devia ter três ou quatro anos. Mas lembro daquela sensação ruim.
Sim, quando temos três ou quatro anos, as coisas são muito mais graves. Doem muito.
Os adultos não entendem. Eles foram dar uma volta rápida, talvez algumas horinhas
apenas. Não era um abandono. Nunca houve abandono. Eles não podiam evitar.
Não era nada demais, mas eu os vi indo embora e me deixando para trás.
A vovó nunca me contou, mas eu sei que ela virou a esquina com o coração apertado e
cheio de culpa.
Não era nada demais — hoje eu sei.
A vovó precisa saber que ela fez o melhor. E, no fim, tenho certeza de que muitas das
brincadeiras e diversões que eu tive naquele verão aconteceram justamente naquele
dia.
Essas memórias são muito especiais.
E, meu filho, talvez você passe por isso em algum momento. Talvez eu não consiga,
sendo adulto, lembrar exatamente de como é ser criança. Talvez eu não consiga
entender algumas coisas. Talvez eu esteja mais insensível do que aos quatro ou cinco
anos.
Mas são esses momentos — cada um deles — que vão nos tornando quem nós somos.
E tu serás quem tiveres de ser, apesar de o papai ser um adulto e não te entender de
vez em quando.
Te amo.
— *Post extraído do blog ‘Opiniático Reflexivo’ em 29/03/2026 às 21:19* — ##


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