24 dias – Lugar à mesa

Meu filho,
Acho que vale te alertar: o mundo não é justo.
E nunca será.
Até porque o próprio conceito de justiça não é simples de definir. Há quem diga que
justiça é garantir ao outro, ou a si mesmo, aquilo que lhe é de direito. Mas por que
alguns têm tanto, enquanto outros têm tão pouco? Por que alguns fazem da vida algo
leve, enquanto outros apenas a suportam?
O Natal, saberás em breve, é a data em que comemoramos o nascimento do menino
Jesus. Para nossa família, e para grande parte da humanidade, Jesus foi o homem
mais importante que já existiu. O filho de Deus. Acreditamos que sua mensagem serve
de guia para vivermos melhor.
No Natal passado, vivemos uma experiência diferente. O titio Rafa reuniu a família do
papai para alguns dias fora. Estavam o vovô e a vovó, o dindo, a dinda e a Laurinha.
Estávamos também o Brian, o Lucca, eu, a mamãe e tu, ainda dentro dela. Fomos para
um grande hotel, com piscinas, restaurantes e muitas coisas legais.
A ceia de Natal é um rito de encontro, de afeto e reconciliação. A nossa aconteceu ali,
cercada de vinhos, espumantes e pratos variados.
Nada nos exigia esforço. A vovó não cuidava do forno, a mamãe não organizava a
mesa, eu não pensava nas bebidas. Apenas nos sentamos. Um gesto bastava para
encher o copo. Alguns passos, e o prato estava abastecido. A música tocava. Tudo
parecia um filme da Sessão da Tarde.
Para nós.
Quem nos servia, porém, vivia outro Natal. Uma menina muito jovem se movia com
atenção e cansaço no olhar. Uma senhora de mãos envelhecidas corria para manter o
buffet cheio. Um rapaz, talvez da segurança, parecia distante, quem sabe pensando
nos filhos em casa.
Aquilo me incomodou, Mateo.
Ninguém deveria precisar deixar os filhos na noite de natal, para ganhar algum
dinheiro e abastecer a casa. Qual o preço disso? Qual o custo disso?
Mas a vida funciona assim. Para garçons e cozinheiros, mas também para médicos e
enfermeiros, policiais e bombeiros, pilotos e comissários. Nem sempre é apenas
dinheiro. Às vezes é escolha. Às vezes é acaso.
Alguém sempre fará o trabalho pesado. E alguém precisará pagar por ele, para que o
trabalho exista e a vida siga. O equilíbrio nasce do próprio desequilíbrio. Um paradoxo
difícil.
Às vezes me pergunto se a mesa vira. Se quem serve hoje será servido amanhã.
É possível. Mas não para todos.
Talvez aquela menina estude, persista e conquiste seu lugar. Talvez a sorte a alcance
de formas inesperadas. Mas tudo dependerá dela. Ou daquilo que chamamos de sorte
quando não sabemos explicar, como num conto de fadas, ou numa temporada de
Bridgerton.
Essa carta poderia se estender por muitas páginas.
Não é esse o ponto.
Como teu pai, é importante te dizer: entenda que o mundo não é justo e não te dará
nada gratuitamente. Antes mesmo de nasceres, já tens privilégios gigantescos. Seja
sempre grato. Faça o melhor que puderes para honrar isso e conquistar teu espaço à
mesa, mas não a qualquer custo. Sempre com o suor do teu rosto, teu esforço e tua
inteligência.
Te amo.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19


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