11 dias – Do Paralama ao Berço

Meu filho,
Não quero te contar longas histórias. Escolhi te escrever cartas curtinhas, para que tu
possas ler com vontade. Nossa genética não favorece a síntese, mas eu vou tentar.
Em algum momento vais descobrir que a adolescência não é fácil. Muitas coisas
acontecem ao mesmo tempo. Os adultos deveriam compreender melhor essa fase.
Agora sei, como adulto, que também não é fácil lidar com adolescentes. Tenho feito o
exercício de me colocar no lugar do teu irmão, lembrando de como eu era, do que
fazia e sentia. Talvez ele seja até mais tranquilo do que eu fui. Temos a mania de
imaginar que antes era diferente. Não era.
Eu não era fácil. E, por estratégia, não vou te contar tudo o que aprontei. Se puxares
por nós, já terás argumentos suficientes para defender tuas próprias traquinagens.
Posso te contar, porém, que sempre gostei de dirigir, muito antes de poder. Incomodei
bastante o vovô e a vovó por causa disso. Tirei minha primeira habilitação no dia
seguinte ao meu aniversário de 18 anos. Só não foi no próprio dia porque era
domingo. Fiz testes e exames no meio de uma crise de apendicite aguda. Aniversário
no domingo, carteira na segunda, mesa de cirurgia na terça.
Isso foi há 30 anos.
Mais tarde comprei uma moto, uma Honda XL. Aprendi a pilotar no dia em que saí da
loja com ela. Outra boa história, quase uma novela. E não, eu não tinha habilitação
para moto. Era minha primeira conquista grande, paga com meu dinheiro e minha
dívida.
O problema das motos é que elas são rápidas. Ágeis. Passam por qualquer fresta. O
medo inicial vira ousadia. Até encontrar o paralama de um carro. Um voo
cinematográfico. Três fraturas, duas luxações, escoriações, três meses de cama, outros
três de gesso e quase 30 anos com uma perna torta.
Tive sorte. E tu também, porque não estarias lendo esta carta se eu tivesse batido na
porta e não no paralama daquele Gol.
Mas essa nem era a história principal.
Minutos antes do acidente, eu havia discutido feio com o tio Rafa. Eu era maior, mais
forte e meio abusado. Ele me mostrou um espelho que eu ainda não tinha visto. Nunca
esqueci aquele dia.
Teus tios são as pessoas mais incríveis que conheço e tenho o privilégio de tê-los como
irmãos. São das pessoas que mais amo no mundo, junto de ti, da mamãe, dos teus
irmãos e dos vovôs, para ninguém ficar com ciúmes. Às vezes não percebemos quando
magoamos quem amamos. Não sei se alguma vez pedi desculpa como deveria. Mas
nunca esqueci.
Irmãos são importantes. Os meus são mais. O tio Cássio é teu dindo. O tio Rafa é como
se fosse. Tenho autoridade de irmão mais velho para dizer isso. Se precisares, corre
para eles. Eles vão te ajudar.
Combinado?
Te amo.
Post extraído do blog Opiniático Reflexivo em 29/03/2026 às 21:19


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